A redução dos danos do tabagismo tem ganhado cada vez mais espaço nas discussões sobre saúde pública em vários países. Além das medidas tradicionais para combater o tabagismo, como campanhas de prevenção e aumento de impostos sobre cigarros, diferentes nações passaram a avaliar estratégias complementares para ajudar fumantes a abandonar o cigarro.
Entre essas alternativas estão os sachês de nicotina (nicotine pouches), pequenos produtos de uso oral que liberam nicotina sem produzir fumaça, combustão ou utilizar folhas de tabaco.
Embora ainda sejam novidade em muitos mercados, os sachês já fazem parte das estratégias de substituição do cigarro convencional em diversos países. Por isso, eles vêm sendo estudados por pesquisadores que analisam sua composição, possíveis riscos à saúde, forma de uso e impacto no comportamento dos consumidores. Entender como esses produtos funcionam e o que as pesquisas mostram é fundamental para que o debate seja baseado em evidências científicas, e não apenas em opiniões ou percepções.
Índice do conteúdo
O que são os sachês de nicotina e de quais materiais são compostos?
Os sachês de nicotina são pequenos envelopes brancos, semelhantes aos tradicionais sachês de chá, destinados ao uso oral. Diferentemente do snus sueco, eles não contêm folhas de tabaco, sendo compostos principalmente por fibras vegetais, água, aromatizantes, reguladores de pH, adoçantes e nicotina de grau farmacêutico.

Durante o uso, o sachê é colocado entre a gengiva e o lábio superior, onde permanece por cerca de 20 a 60 minutos. Nesse período, a nicotina é absorvida gradualmente pela mucosa oral, entrando na circulação sanguínea sem que ocorra combustão ou produção de fumaça.
Por não produzirem aerossóis nem envolverem a queima do tabaco, os sachês eliminam a exposição a milhares de substâncias tóxicas formadas durante a combustão do cigarro, incluindo alcatrão, monóxido de carbono e diversos compostos reconhecidamente carcinogênicos.
Como a nicotina é absorvida?
A forma como a nicotina é absorvida pelo organismo depende de fatores como o pH do sachê, a quantidade de nicotina presente e o tempo que ele permanece na boca. Quando o produto tem um pH mais alcalino, uma parcela maior da nicotina fica em uma forma que facilita sua absorção pela mucosa oral.
Esse processo acontece de forma mais gradual do que no cigarro convencional. Ao fumar, a nicotina chega rapidamente aos pulmões e, em poucos segundos, alcança o cérebro após cada tragada.
Apesar dessa absorção mais lenta, alguns sachês de nicotina mais modernos conseguem atingir níveis de nicotina no sangue semelhantes aos de outros produtos sem combustão. Por isso, podem ajudar a reduzir os sintomas de abstinência em fumantes adultos que estão substituindo o cigarro.
Sachês de nicotina, snus e cigarros eletrônicos: quais as diferenças?
Embora sejam frequentemente citados no mesmo debate, o snus, os sachês de nicotina e os cigarros eletrônicos são produtos diferentes e funcionam de maneiras distintas.
O snus é um produto tradicional da Suécia feito com tabaco oral pasteurizado. Seu uso ao longo das últimas décadas tem sido associado à expressiva redução do tabagismo no país, que hoje registra uma das menores taxas de doenças relacionadas ao cigarro na Europa.
Os sachês de nicotina não contêm tabaco. Eles utilizam nicotina purificada, o que reduz significativamente a presença de substâncias que ocorrem naturalmente nas folhas de tabaco.
Já os cigarros eletrônicos funcionam de outra forma. Eles aquecem um líquido com nicotina para produzir um aerossol que é inalado pelo usuário. Assim como os sachês, não envolvem a queima do tabaco, mas seu modo de uso é completamente diferente, já que os sachês são utilizados exclusivamente na boca.
Em comum, esses produtos oferecem nicotina sem combustão. No entanto, pertencem a categorias distintas, têm formas de uso diferentes e apresentam perfis toxicológicos próprios.
O que dizem os estudos sobre sua composição?
Estudos realizados em diferentes países mostram que os sachês de nicotina contêm uma quantidade muito menor de substâncias potencialmente tóxicas do que os cigarros convencionais.
Isso acontece porque eles não envolvem combustão. Sem a queima do tabaco, deixam de ser produzidas muitas das substâncias mais associadas às doenças causadas pelo cigarro, como o monóxido de carbono, os hidrocarbonetos policíclicos aromáticos e grande parte das nitrosaminas presentes na fumaça.
As pesquisas também indicam níveis mais baixos de aldeídos, metais pesados e de outros compostos formados durante a queima do tabaco. Ainda assim, a composição dos sachês pode variar entre fabricantes. Por isso, especialistas destacam a importância de uma regulamentação adequada, com controle de qualidade e monitoramento laboratorial para garantir a segurança dos produtos.
Os sachês são isentos de riscos?
Não.
Apesar de apresentarem perfil toxicológico inferior ao do cigarro convencional, os sachês de nicotina não são produtos livres de risco.
A nicotina é uma substância farmacologicamente ativa que pode causar dependência e provocar efeitos cardiovasculares transitórios, como aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial. Alguns usuários também relatam irritação na mucosa oral, desconforto gengival, náuseas ou soluços, especialmente durante o período inicial de adaptação.
Por esse motivo, os sachês não devem ser utilizados por crianças, adolescentes, gestantes ou pessoas que nunca utilizaram produtos contendo nicotina.
Além disso, embora existam estudos de curto e médio prazo demonstrando baixa exposição a compostos tóxicos, ainda são necessários acompanhamentos de longo prazo para compreender completamente os efeitos decorrentes de décadas de utilização.
Qual é o papel dos sachês de nicotina na redução de danos?
A redução de danos é uma estratégia baseada em evidências científicas que parte de um princípio importante: a maior parte das doenças causadas pelo cigarro está relacionada à combustão do tabaco, e não apenas à nicotina.
Por isso, pesquisadores e organizações internacionais defendem que fumantes adultos que não conseguem parar de usar nicotina podem se beneficiar da substituição do cigarro por produtos que eliminam a combustão. Com isso, é possível reduzir significativamente a exposição às substâncias tóxicas e cancerígenas presentes na fumaça do cigarro.
Nesse cenário, os sachês de nicotina aparecem como uma das opções disponíveis dentro do chamado continuum de risco. Como não envolvem a queima do tabaco, apresentam um perfil de risco diferente do cigarro convencional.
Isso não significa que sejam isentos de riscos nem que devam ser usados por qualquer pessoa. Especialistas ressaltam que esses produtos não são indicados para quem nunca utilizou nicotina. Seu potencial papel está voltado aos fumantes adultos que, de outra forma, continuariam fumando cigarros combustíveis e poderiam reduzir sua exposição a substâncias tóxicas ao migrar para alternativas sem combustão.
O cenário regulatório no mundo
As regras para os sachês de nicotina variam de um país para outro. Enquanto algumas nações já estabeleceram normas sobre composição, limite de nicotina, rotulagem, publicidade e idade mínima para compra, outras ainda discutem como esses produtos devem ser regulamentados.
No Brasil, o tema continua em análise pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O debate acontece em um momento de crescente interesse da comunidade científica pelos produtos de nicotina sem combustão e pelo papel que eles podem desempenhar nas estratégias de redução de danos.
Independentemente do modelo adotado, pesquisadores defendem que uma regulamentação eficaz deve equilibrar diferentes objetivos: impedir o acesso de crianças e adolescentes, garantir padrões rigorosos de qualidade dos produtos e oferecer informações baseadas em evidências para fumantes adultos.
A Suécia é um dos principais exemplos desse modelo. Em 2022, o país regulamentou os sachês de nicotina por meio da Lei sobre Produtos de Nicotina Sem Tabaco, estabelecendo regras para a qualidade dos produtos, advertências sanitárias e venda apenas para maiores de 18 anos. Ao mesmo tempo, não proibiu sabores nem adotou restrições consideradas excessivas.
Segundo pesquisadores, esse modelo contribuiu para que muitos fumantes adultos substituíssem o cigarro convencional por alternativas orais sem combustão. Como resultado, a Suécia se tornou o primeiro país da Europa a atingir o status de “livre de fumo” (smoke-free), com menos de 5% da população fumando diariamente.
Considerações finais
Os sachês de nicotina são uma alternativa relativamente recente entre os produtos de nicotina sem combustão voltados para adultos. Como liberam nicotina por via oral e não envolvem a queima do tabaco, apresentam um perfil de exposição diferente do observado nos cigarros convencionais.
As pesquisas disponíveis mostram que esses produtos expõem os usuários a uma quantidade muito menor das principais substâncias tóxicas presentes na fumaça do cigarro. Isso, porém, não significa que sejam isentos de riscos. Eles ainda podem causar dependência e seus efeitos do uso prolongado continuam sendo investigados.
À medida que novos estudos de longo prazo forem publicados, será possível compreender melhor sua segurança, eficácia e impacto na saúde da população. Até lá, especialistas defendem que as decisões sobre esses produtos sejam baseadas nas melhores evidências científicas disponíveis, diferenciando os riscos da nicotina daqueles provocados pela combustão do tabaco, que continua sendo a principal responsável pelas doenças relacionadas ao tabagismo.
FAQ — Perguntas Frequentes
1. Sachês de nicotina contêm tabaco ou usam combustão?
Não. Os sachês de nicotina não contêm folhas de tabaco e não utilizam combustão, fogo, fumaça ou vaporização. Eles são envelopes de uso exclusivamente oral compostos por fibras vegetais, aromatizantes e nicotina purificada de grau farmacêutico.
2. Qual é a diferença entre sachês de nicotina, snus e cigarros eletrônicos?
A diferença principal está na composição e na forma de uso:
- Snus: É um produto oral tradicional que contém folhas de tabaco pasteurizadas.
- Sachês de nicotina: São orais, mas sem tabaco, contendo apenas a nicotina purificada.
- Cigarros eletrônicos (vapes): Aquecem um líquido com nicotina gerando um vapor inalado pelos pulmões , enquanto os sachês liberam nicotina pela mucosa da boca.
3. Os sachês de nicotina são totalmente isentos de riscos?
Não. Embora eliminem a fumaça e a maioria das substâncias tóxicas da combustão , eles ainda contêm nicotina, uma substância ativa com potencial de causar dependência e alterações cardiovasculares temporárias (como aumento da frequência cardíaca). Por isso, não são recomendados para menores de idade , gestantes ou pessoas que nunca fumaram.
4. Qual é a situação regulatória dos sachês de nicotina no Brasil?
No Brasil, a regulamentação dos sachês de nicotina e outros produtos sem combustão segue em constante debate e revisão no âmbito da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). As discussões envolvem critérios de segurança, controle de qualidade, regras contra o uso por menores e rotulagem adequada
Referências
1. CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION (CDC). Nicotine pouches. Atlanta: CDC, 2025. Disponível em: https://www.cdc.gov/tobacco/nicotine-pouches/. Acesso em: 21 jul. 2026.
2. JACKSON, J. M.; WEKE, A.; HOLLIDAY, R. Nicotine pouches: a review for the dental team. British Dental Journal, v. 235, n. 8, p. 643-646, 2023.
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7. DIRETA – Diretório de Informações para Redução dos Danos do Tabagismo. Sachês de nicotina: o que a ciência diz sobre riscos e regulação. Disponível em: https://direta.org/saches-de-nicotina/. Acesso em: 21 jul. 2026.




