Adolescentes não deveriam começar a usar cigarros eletrônicos, mas a aprovação de vapes saborizados pelo FDA oferece nova esperança para quem quer largar o cigarro, muito mais letal.
Nota editorial — Este artigo foi originalmente publicado em inglês por Sally Satel no veículo americano The Free Press, sob o título “Don’t Freak Out About Fruit-Flavored Vapes”. A tradução é de responsabilidade da redação e foi produzida para fins informativos.
O debate descrito aqui tem um paralelo direto no Brasil, com uma diferença crucial: enquanto os Estados Unidos tinham, em 2019, um mercado legal porém mal regulamentado (a FDA só passou a exigir autorização prévia dos fabricantes a partir de 2016, e a proibição de venda a menores de 21 anos veio em 2019), o Brasil optou por não regulamentar, apenas proibindo a comercialização de cigarros eletrônicos desde 2009 pela Anvisa, proibição mantida em 2024.
O resultado é o mesmo que nos EUA durante os anos de lacuna regulatória: um mercado ilegal em franca expansão, com produtos de procedência desconhecida e sem qualquer controle sanitário. O impacto é mais sentido na população jovem. Os dados da PeNSE 2024, divulgada pelo IBGE, mostram que a experimentação de cigarro eletrônico entre estudantes de 13 a 17 anos saltou de 16,8% em 2019 para 29,6% em 2024, com 31,7% entre as meninas e 26,3% declarando uso nos últimos 30 dias. Tudo isso com a proibição em vigor.
O cenário brasileiro de hoje é, em muitos aspectos, mais grave do que o americano de 2019: o consumo entre jovens cresce rapidamente, o mercado é 100% ilegal e sem fiscalização efetiva sobre composição, concentração de nicotina ou restrição de acesso por idade.
Por Sally Satel — traduzido de The Free Press
Manga e mirtilo. Esses dois sabores entraram para a história regulatória quando o Food and Drug Administration (FDA) autorizou a venda de vapes com sabor de frutas no mês passado, começando por esses dois.
Foi uma excelente notícia para milhões de americanos que querem largar o cigarro, a principal causa de morte evitável. Adultos preferem esmagadoramente produtos de vape saborizados como alternativa ao tabagismo e têm muito mais probabilidade de usar vapes com sabor de frutas do que cigarros eletrônicos com sabor de tabaco ou mentol para abandonar o vício.
A decisão do mês passado permite que a empresa Glas comercialize para adultos seus sabores Sapphire (mirtilo) e Gold (manga). O dispositivo em si é o Fort Knox dos vapes. Os usuários precisam parear o aparelho com um smartphone verificado por idade via Bluetooth, baixar um aplicativo, fazer o upload de uma selfie e de uma imagem da carteira de motorista, e usar o dispositivo próximo ao celular pareado.
Mas o que é bom para adultos, ao que parece, é ruim para adolescentes. A American Lung Association classificou a decisão do FDA como “irresponsável” e expressou preocupação de que os sabores atraiam jovens para o vaping. A Campaign for Tobacco-Free Kids acusou a agência de “arriscar uma ressurgência no uso de e-cigarros por jovens”. E a American Academy of Pediatrics declarou estar “profundamente alarmada de que esses produtos acabem nas mãos de jovens”.
Mas o quanto realmente precisamos nos preocupar com o vaping entre jovens [nos EUA]? Os fatos são surpreendentemente tranquilizadores.
O número real de adolescentes que vaporizam é modesto. A National Youth Tobacco Survey (NYTS), conduzida pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) e pelo FDA, mostrou que em 2025, 7,1% dos estudantes do ensino médio usaram um vape ao menos uma vez no mês anterior. Esse percentual caiu 75% em relação a 2019.
O uso no mês anterior pode ser dividido entre “uso frequente” (entre 20 e 30 dias por mês) e “experimentação esporádica” (entre um e cinco dias). Os usuários frequentes representaram quase metade de todos os estudantes do ensino médio que vaporizam, o que pode soar muito, mas corresponde a apenas 3,1% de todos os alunos do ensino médio.
Tampouco devemos nos preocupar demais com esses usuários frequentes. Apenas uma parcela ínfima deles são o que Brad Rodu, professor de medicina da Universidade de Louisville, chama de “vapers virgens”, um termo cunhado para designar adolescentes que nunca haviam usado nenhuma substância aditiva antes de começar a vaporizar. A pesquisa NYTS mais recente mostrou que 82% dos usuários frequentes relataram usar ou ter usado anteriormente algum produto de tabaco ou cannabis. Em outras palavras, esses adolescentes provavelmente experimentariam o vape independentemente de ele ter sabor de manga.
Em comparação com os cigarros convencionais, a composição dos vapes é relativamente benigna. O aerossol produzido pelo aquecimento de uma solução de nicotina, aromas, propilenoglicol e glicerina contém de uma a duas ordens de grandeza a menos de substâncias químicas do que a fumaça do cigarro. Isso porque os vapes não queimam o tabaco, processo que libera alcatrão, monóxido de carbono, dezenas de carcinógenos e dezenas de milhares de outras substâncias tóxicas. Os vapes sequer contêm tabaco. Com base em análises toxicológicas e estudos de biomarcadores, o Office for Health Improvement and Disparities do Reino Unido considera o vaping responsável por apenas “uma pequena fração dos riscos do tabagismo”.
Outra preocupação é que o vaping leve adolescentes a fumar. Mas tendências recentes mostram que os produtos provavelmente funcionam como uma saída do tabagismo, e não uma entrada. Segundo a pesquisa NYTS, apenas 1,8% dos estudantes do ensino médio fumavam em 2025, o menor número desde que o governo federal americano começou a monitorar esse indicador nos anos 1970. Além disso, a queda progressiva no tabagismo entre jovens desde 2000 se acelerou por volta de 2010 a 2014, depois que os vapes se tornaram amplamente disponíveis. Enquanto isso, o vaping entre adolescentes caiu e se estabilizou nos últimos anos.
Em suma, os jovens que hoje vaporizam nos banheiros da escola estariam fumando lá há dez anos. Dificilmente faz sentido dizer que o vaping por si só é uma porta de entrada para o cigarro.
Isso significa que nenhum jovem de 15 anos migrou alguma vez para o cigarro depois de ter começado a vaporizar? “Não, nada pode ser descartado no nível individual”, disse-me Clive Bates, ex-diretor da Action on Smoking and Health, grupo de controle do tabaco no Reino Unido. “Mas no nível populacional agregado, o cenário é notavelmente positivo: vemos os vapes deslocando o cigarro entre jovens que, de outra forma, teriam fumado.”
Como o quanto precisamos nos preocupar com o vaping entre jovens? Os fatos são surpreendentemente tranquilizadores.
Em terceiro lugar, a alegação comum de que a nicotina prejudica o cérebro adolescente não tem fundamento. Embora ratos adolescentes mostrem alterações neuronais no cérebro quando injetados com nicotina, fato dubiosamente promovido como evidência de risco para adolescentes humanos, o que essas alterações significam está longe de ser claro. Considere também o fato óbvio de que quase 60% dos baby boomers fumavam, especialmente na adolescência, sem que qualquer déficit no neurodesenvolvimento tenha sido suspeito ou documentado ao longo do tempo.
Voltemos agora à preocupação mais premente dos críticos: que os sabores são um fator-chave para o vaping entre jovens. Não é bem assim. Em resposta à pergunta da NYTS “Por que você usou um vape pela primeira vez?”, os adolescentes colocaram os sabores no final da lista de atrações, mesmo sendo permitido marcar múltiplas opções. O fator mais citado (por 52% dos que vaporizaram no mês anterior) foi o fato de que seus amigos estavam usando. Vinte e oito por cento disseram usar vapes para aliviar “ansiedade e estresse”. Apenas 0,4% apontou os sabores como único motivo para começar a vaporizar.
Já se passaram duas décadas desde que o vaping se tornou disponível nos EUA, e nenhuma evidência clara de danos relacionados à saúde de adultos ou jovens surgiu. A única exceção, conhecida há muito tempo, é o impacto da nicotina no desenvolvimento fetal.
O fato é que o vaping é uma alternativa potencialmente salvadora de vidas para o tabagismo, especialmente para aqueles para quem auxílios de reposição de nicotina, como adesivos, gomas ou medicamentos, não funcionaram. Em ensaios clínicos randomizados, fumantes designados para receber vapes tiveram o dobro de sucesso em parar de fumar em comparação com aqueles que receberam goma ou adesivo de nicotina ou apenas suporte comportamental.
No entanto, as manchetes continuam alarmistas. Muitos estudos científicos e os jornalistas que os reportam advertem sobre sérios perigos à saúde. A verdade, porém, é que estudos que afirmam que o vaping causa doenças pulmonares ou cardiovasculares estão rotineiramente repletos de falhas metodológicas. Um estudo muito divulgado sobre o vaping como causa de ataques cardíacos foi retratado, assim como um sobre câncer.
Um erro comum, por exemplo, é a tendência dos pesquisadores de confundir os danos tardios de décadas de tabagismo com novos danos causados pelo vaping. Na verdade, fumantes que migram completamente para o vaping apresentaram melhora na função pulmonar em estudos que acompanharam usuários por três a cinco anos, e na saúde vascular em um artigo de revisão de estudos que monitorou consumidores por até dois anos.
O uso por jovens sempre foi a razão do FDA para negar a autorização de vapes destinados a adultos. Como resultado, a agência infligiu um duplo golpe na saúde pública. Não apenas privou os adultos dos produtos saborizados que mais os ajudam a migrar do cigarro para o vape: o FDA essencialmente fomentou um próspero mercado ilícito de vapes chineses. A China é a principal fonte de vapes não regulamentados com sabores de frutas, doces e sobremesas para adolescentes e adultos.
O surto de vapes saborizados no mercado ilegal lança ainda mais dúvidas sobre o poder de sedução dos sabores: afinal, à medida que vapes de pêssego, piña colada e algodão-doce azul inundaram o mercado nos últimos cinco ou seis anos, o vaping entre adolescentes diminuiu.
Agora que o FDA está sob nova liderança após a renúncia do avesso ao vape Dr. Marty Makary como comissário em maio, a agência tem a oportunidade de realinhar suas prioridades com os fatos. O mais importante deles é que o vaping deslocou o tabagismo entre os jovens. Na ausência dos vaporizadores, muito mais adolescentes provavelmente estariam fumando hoje.
Este é um benefício importante de saúde pública que o FDA ignorou por muito tempo. Uma agência mais inteligente daria mais peso aos benefícios imediatos e tangíveis para os fumantes do que às ansiedades exageradas em torno do vaping por jovens.
Sally Satel é pesquisadora sênior do American Enterprise Institute. Arielle Selya, cientista sênior da Pinney Associates, consultora da Juul Labs, contribuiu com expertise em conteúdo científico.
Artigo original: Don’t Freak Out About Fruit-Flavored Vapes — The Free Press





