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Documento publicado no JAMA reúne evidências científicas e recomenda que profissionais de saúde incluam os vapes nas conversas sobre tratamento do tabagismo, sempre com foco na substituição completa do cigarro convencional.
O cigarro convencional continua sendo uma das principais causas de doenças e mortes evitáveis no mundo. Diante desse cenário, um grupo internacional de pesquisadores publicou um documento na revista científica JAMA defendendo que médicos passem a incluir os cigarros eletrônicos com nicotina nas conversas sobre tratamento do tabagismo, ao lado dos medicamentos já aprovados para esse fim. O estudo reúne o conhecimento especializado de especialistas vinculados a renomadas instituições de ensino e pesquisa internacionais. Nos Estados Unidos, o grupo conta com pesquisadores de faculdades de medicina, centros de oncologia e escolas de saúde pública de universidades como Harvard, Yale, Brown, dentre outras. A relevância global da publicação é reforçada pela colaboração internacional de centros de referência do Reino Unido, como as universidades de Oxford e Queen Mary University of London, e da Austrália, incluindo a University of New South Wales (UNSW Sydney) e a Flinders University.
A recomendação não significa que os dispositivos sejam isentos de riscos, mas reconhece que as evidências científicas atuais indicam que eles podem ajudar muitos fumantes adultos a abandonar o cigarro tradicional.
JAMA
A JAMA (Journal of the American Medical Association) é uma das revistas científicas de clínica geral mais influentes e amplamente lidas do mundo, publicada semanalmente pela American Medical Association. Com um alto fator de impacto, a revista é reconhecida pelo rigor de seus processos de revisão por pares e análise estatística, publicando pesquisas, revisões e editoriais que cobrem todos os aspectos das ciências biomédicas. Sua importância na comunidade médica é fundamental, pois o JAMA prioriza evidências científicas com alta relevância clínica e aplicabilidade prática para o atendimento ao paciente. Ao promover a integridade da pesquisa e o debate equilibrado sobre questões críticas de saúde, a revista atua como uma referência essencial para profissionais que buscam embasamento para decisões clínicas informadas
A principal mensagem do estudo
Segundo os autores, o objetivo não é incentivar pessoas que nunca fumaram a usar nicotina. A recomendação é direcionada exclusivamente a adultos que já fumam cigarros combustíveis e desejam parar.
A proposta é que o médico apresente todas as opções disponíveis (como adesivos, gomas de nicotina, vareniclina, bupropiona e também os cigarros eletrônicos) explicando os benefícios e limitações de cada alternativa para que a decisão seja tomada em conjunto com o paciente.
O que as pesquisas mostram?
Os pesquisadores revisaram os estudos mais recentes sobre cessação do tabagismo e destacam que existe um conjunto robusto de evidências indicando que os cigarros eletrônicos com nicotina podem aumentar as chances de abandono do cigarro convencional.
O documento cita, entre outras evidências, a revisão sistemática da Cochrane — considerada uma das mais rigorosas da medicina baseada em evidências — que encontrou alto grau de confiança de que cigarros eletrônicos com nicotina proporcionam maiores taxas de cessação do que terapias tradicionais de reposição de nicotina, como adesivos e gomas.
Os autores também ressaltam que o uso diário dos dispositivos está associado a maiores chances de sucesso na substituição completa do cigarro.
A combustão é o principal problema
Uma das explicações centrais do documento é que a maior parte dos danos causados pelo cigarro não decorre da nicotina em si, mas da combustão do tabaco.
Quando o cigarro é queimado, milhares de substâncias químicas são produzidas, incluindo dezenas de compostos cancerígenos e tóxicos para o sistema cardiovascular e respiratório.
Já os cigarros eletrônicos aquecem um líquido contendo nicotina, sem ocorrer combustão. Por isso, a exposição aos principais compostos tóxicos é significativamente menor.
Segundo o artigo, alguns biomarcadores de exposição podem ser até 90% menores entre pessoas que substituem completamente o cigarro pelo vape, em comparação com quem continua fumando cigarros convencionais (Leavens et al., 2026, p. 2).
Muitas pessoas ainda têm percepções equivocadas
Outro tema destacado pelos especialistas é a persistência de informações incorretas sobre os cigarros eletrônicos.
Segundo o documento, pesquisas mostram que muitas pessoas, incluindo profissionais de saúde, acreditam que os vapes são tão nocivos quanto os cigarros ou até mais prejudiciais.
Os autores atribuem essa percepção a diferentes fatores, entre eles:
- a confusão entre os efeitos da nicotina e os efeitos da fumaça da combustão;
- campanhas de prevenção voltadas aos jovens que podem ter gerado interpretações equivocadas entre fumantes adultos;
- a associação do surto de lesões pulmonares ocorrido em 2019 nos Estados Unidos aos cigarros eletrônicos com nicotina, quando as investigações apontaram que o problema estava relacionado principalmente a produtos ilícitos contendo THC adulterados com acetato de vitamina E.
Como os médicos devem orientar os pacientes?
O grupo de especialistas recomenda que os profissionais adotem uma abordagem individualizada.
Antes de sugerir qualquer estratégia, o médico deve compreender quais são os objetivos do paciente, suas experiências anteriores para parar de fumar, suas dúvidas e suas preferências.
Caso o paciente opte por utilizar um cigarro eletrônico para abandonar o tabagismo, os autores orientam que:
- seja dada preferência a produtos autorizados pela FDA para comercialização;
- o vape seja utilizado como substituto do cigarro, e não como complemento permanente;
- a transição para abandonar totalmente o cigarro convencional aconteça o mais rapidamente possível;
- o tratamento seja acompanhado por aconselhamento comportamental e consultas de acompanhamento.
O uso simultâneo deve ser evitado
Os pesquisadores reconhecem que muitas pessoas passam por um período utilizando tanto cigarros quanto cigarros eletrônicos. Entretanto, eles afirmam que esse uso duplo deve ser encarado apenas como uma fase de transição.
Isso porque mesmo pequenas quantidades de cigarro convencional continuam expondo o organismo às substâncias produzidas pela combustão. Por esse motivo, o objetivo deve ser sempre a substituição completa do cigarro fumado.
O que muda com essa publicação?
Na avaliação dos autores, as recomendações existentes nos Estados Unidos foram elaboradas quando havia menos evidências científicas sobre o tema.
Com a publicação de novos ensaios clínicos e revisões sistemáticas nos últimos anos, o grupo conclui que já existe base científica suficiente para que os cigarros eletrônicos passem a fazer parte das conversas entre médicos e pacientes fumantes adultos que desejam abandonar o cigarro convencional.
O documento enfatiza, porém, que essa orientação não se aplica a adolescentes, jovens ou pessoas que nunca utilizaram produtos com nicotina, grupos para os quais a recomendação continua sendo evitar qualquer iniciação ao uso desses produtos.
Conclusão
A principal contribuição da publicação é defender uma abordagem baseada em evidências científicas e centrada no paciente.
Segundo os autores, diante do enorme impacto do tabagismo na saúde pública e das evidências acumuladas até o momento, os profissionais de saúde devem discutir os cigarros eletrônicos como uma das alternativas disponíveis para fumantes adultos que desejam parar de fumar, sempre explicando que esses dispositivos apresentam riscos inferiores aos do cigarro convencional, mas não são isentos de riscos.
O objetivo final permanece o mesmo: reduzir os danos causados pelo tabagismo e aumentar as chances de que mais fumantes consigam abandonar definitivamente o cigarro convencional.
Referência: LEAVENS, Eleanor L. S. et al. Nicotine E-Cigarettes for Cigarette Smoking Cessation: Recommendations to US-Based Clinicians. JAMA, 30 jul. 2026. DOI: 10.1001/jama.2026.13087. Disponível em: https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2852321. Acesso em: 1 ago. 2026.


