Levantamento com mais de 4 mil consumidores indica que o modelo de venda exclusiva em farmácias alcança uma parcela reduzida dos consumidores e serve de alerta para o Brasil, onde a proibição mantém todo o comércio de vapes no mercado ilegal.
Aproximadamente 95,7% dos cigarros eletrônicos adquiridos na Austrália podem ter origem no mercado ilegal. A estimativa integra um relatório conduzido pelo criminologista James Martin, da Deakin University, e reacende o debate sobre a capacidade do modelo australiano de venda exclusiva em farmácias de atender à demanda existente.
O relatório Understanding the Australian Illicit Nicotine Market 2025 analisou informações de mais de 4 mil pessoas que haviam consumido produtos de nicotina recentemente. A pesquisa aplicou métodos de ponderação e classificação para estimar o tamanho, a composição e o perfil do mercado ilegal no país.
De acordo com os resultados, somente uma pequena parcela das compras de vapes estaria ocorrendo pelos canais autorizados. O dado contrasta com a existência de um número expressivo de consumidores e sugere que a disponibilidade legal desses produtos não tem sido suficiente para deslocar as compras para o mercado regulado.
O trabalho foi financiado pelo Departamento de Assuntos Internos da Austrália e encaminhado ao comissário responsável pelo combate ao comércio ilegal de tabaco e cigarros eletrônicos. Por se tratar de uma estimativa construída a partir de questionários e modelos estatísticos, o percentual não equivale a um registro direto de todas as vendas realizadas no país, mas oferece uma dimensão do problema.
Como funciona o modelo australiano
Desde outubro de 2024, os adultos australianos podem comprar, sem receita médica, determinados vapes terapêuticos com concentração de nicotina de até 20 mg/ml. A aquisição, entretanto, somente pode ser realizada em farmácias participantes, após uma conversa com o farmacêutico e conforme as regras de cada estado ou território.
Produtos com concentrações superiores continuam exigindo prescrição. Além disso, o mercado legal está limitado aos sabores tabaco, menta e mentol, com embalagens farmacêuticas padronizadas. Estabelecimentos como lojas de conveniência, tabacarias e lojas especializadas não podem comercializar cigarros eletrônicos legalmente. As regras estão detalhadas pelo Departamento de Saúde da Austrália.
O objetivo declarado da política é restringir o uso recreativo, especialmente entre adolescentes, ao mesmo tempo que mantém uma via terapêutica para adultos que desejam parar de fumar ou controlar a dependência de nicotina.
Na prática, porém, o levantamento indica que o mercado autorizado ainda não consegue competir com os fornecedores ilegais. A quantidade limitada de farmácias participantes, as restrições de sabores e concentrações e a exigência de atendimento farmacêutico podem ajudar a explicar a baixa adesão ao canal legal.
Tabagismo chega ao menor nível histórico
O crescimento do mercado ilegal ocorre ao mesmo tempo que a Austrália registra uma queda expressiva no tabagismo declarado. Em 2025, 5,6% da população com 14 anos ou mais fumava diariamente. A taxa era de 8,3% em 2022 e 2023 e de 19,5% em 2001. Entre os adultos com 18 anos ou mais, o índice chegou a 5,8%.
Os números fazem parte da National Drug Strategy Household Survey 2025, realizada pelo Australian Institute of Health and Welfare com mais de 17,5 mil participantes. A mesma pesquisa oficial constatou que 34% das pessoas que fumavam haviam comprado recentemente tabaco ilegal ou utilizavam produtos ilícitos. Em 2022 e 2023, essa proporção era de 16,7%.
Os dados revelam um cenário complexo: o tabagismo diário continua diminuindo, mas uma parcela crescente do consumo remanescente de tabaco e nicotina está sendo atendida por fornecedores clandestinos.
Modelo das farmácias entra em debate
Os resultados aumentam a pressão por uma revisão da política australiana. Pesquisadores e defensores da redução de danos sugerem um mercado legal mais amplo, com estabelecimentos especializados licenciados, controle de idade, padrões obrigatórios de qualidade e fiscalização.
A proposta seria criar uma alternativa capaz de competir com o comércio clandestino sem abandonar a proteção aos jovens. O desafio para o governo é decidir se a repressão será suficiente ou se o próprio desenho da regulamentação precisará ser reconsiderado.
O alerta para o Brasil
A experiência da Austrália também serve de alerta para o Brasil. Quando comprar o produto legalmente é difícil, o mercado clandestino acaba se tornando o caminho mais fácil. As restrições não fazem a procura desaparecer: apenas afastam os consumidores dos canais fiscalizados.
No Brasil, as regras são ainda mais rígidas. Desde 2009, a Anvisa proíbe a fabricação, a importação, a venda, a distribuição e a propaganda de cigarros eletrônicos. A proibição foi mantida pela RDC nº 855/2024. Com isso, todos os vapes vendidos no país vêm do mercado ilegal, sem controle oficial sobre sua composição, sem fiscalização adequada da venda para menores e sem pagamento de impostos.
Mesmo com a proibição, o consumo continua. O 1º Levantamento Nacional sobre a Demanda de Bens e Serviços Ilícitos no Brasil, realizado pela Escola de Segurança Multidimensional da USP em parceria com o Ipsos, estimou que o mercado brasileiro de cigarros eletrônicos alcança 9,9 milhões de consumidores, considerando a frequência trimestral de consumo. Entre aqueles que consomem mensalmente, a estimativa é de 5,2 milhões. Como a venda é proibida, toda essa demanda é atendida pelo mercado ilegal.
O mesmo levantamento estimou que o comércio clandestino de cigarros eletrônicos movimenta cerca de R$ 7,8 bilhões por ano no Brasil. Outro estudo, realizado pela Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais, calculou que a regulamentação poderia gerar aproximadamente R$ 2,2 bilhões anuais em impostos, além de criar empregos e trazer parte desse mercado para a economia formal.
Essa contradição foi apontada por Ricardo Alban, presidente da Confederação Nacional da Indústria. Conforme noticiado pelo DIRETA, ele questionou uma proibição que não impede a venda de milhões de dispositivos sem controle sanitário. Para Alban, criar regras de qualidade, venda e tributação ajudaria o país a fiscalizar um mercado que, embora proibido, já existe e movimenta bilhões de reais.
Referência
DIRETA. Presidente da Confederação Nacional da Indústria defende regulamentação de cigarros eletrônicos. DIRETA, 13 jul. 2026. Disponível em: https://direta.org/presidente-da-confederacao-nacional-da-industria-defende-regulamentacao-de-cigarros-eletronicos/. Acesso em: 17 ago. 2026.
HONG, Tim. Almost 96% of Australian vapes are bought illegally as pharmacy model struggles, research suggests. Clearing the Air, 13 ago. 2026. Disponível em: https://clearingtheair.eu/en/post/almost-96-of-australian-vapes-are-bought-illegally-as-pharmacy-model-struggles-research-suggests/. Acesso em: 13 ago. 2026.
Understanding the Australian Illicit Nicotine Market 2025 – Report 1: Market Size and Consumer Demographics, relatório publicado pela Deakin University em 2025.
ESCOLA DE SEGURANÇA MULTIDIMENSIONAL DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. 1º Levantamento Nacional sobre a Demanda de Bens e Serviços Ilícitos no Brasil. São Paulo: ESEM-USP, 2025. Disponível em: https://sites.usp.br/esem/wp-content/uploads/sites/1430/2025/10/1o-Levantamento-Nacional-sobre-a-Demanda-de-Bens-e-Servicos-Ilicitos-no-Brasil_.pdf. Acesso em: 17 ago. 2026.
