Ex-diretor da Action on Smoking and Health do Reino Unido passa a contribuir oficialmente com o DIRETA. A colaboração começa com uma ampla entrevista e terá novos conteúdos especialmente voltados ao debate brasileiro.
O DIRETA passa a contar oficialmente com a colaboração de Clive Bates, um dos nomes mais reconhecidos internacionalmente no debate sobre políticas de nicotina, controle do tabagismo e redução de danos. Esta entrevista marca o início da parceria, que deverá trazer aos leitores brasileiros novas análises e contribuições produzidas especialmente para o país.
Bates dirigiu a Action on Smoking and Health (ASH) do Reino Unido entre 1997 e 2003, período em que atuou diretamente em campanhas para reduzir os danos provocados pelo tabagismo. Posteriormente, integrou a Unidade de Estratégia do primeiro-ministro britânico Tony Blair e exerceu funções no setor público e nas Nações Unidas. Atualmente, dirige a Counterfactual, consultoria dedicada a abordagens pragmáticas em sustentabilidade e saúde pública. Conheça sua trajetória.
Sua experiência ajuda a explicar uma característica central de seu trabalho: Bates defende que as políticas públicas precisam distinguir os riscos do cigarro dos riscos apresentados por produtos de nicotina sem combustão. Para ele, combater o tabagismo não deveria significar rejeitar alternativas capazes de reduzir a exposição às substâncias tóxicas produzidas pela queima do tabaco.
Para abrir essa colaboração, Bates respondeu às perguntas de Alexandro Lucian, presidente do DIRETA, sobre alguns dos temas mais controversos do debate brasileiro. A entrevista aborda as divergências entre sua interpretação das evidências e a posição das autoridades nacionais; a associação do vaping à EVALI, ao chamado “pulmão de pipoca” e ao câncer; os riscos reais da nicotina; a proteção dos jovens; o crescimento do mercado clandestino; a influência da indústria e os caminhos para uma regulação proporcional ao risco.
Conheça o trabalho de Clive Bates
Bates publica regularmente no The Counterfactual, seu Substack dedicado à ciência, às políticas públicas e às controvérsias envolvendo tabaco, nicotina e redução de danos.
Para quem deseja compreender melhor os argumentos apresentados nesta entrevista, recomendamos estas leituras:
- Por que o Brasil deveria abandonar sua proposta de proibição dos vapes — análise diretamente voltada à política brasileira e às possíveis consequências da proibição.
- Sem regulação, o Congresso entrega o controle dos vapes às redes criminosas — artigo sobre mercado ilegal, proteção do consumidor e responsabilidade regulatória no Brasil.
- Causar ou evitar 100 milhões de mortes? — uma síntese de sua visão estratégica sobre como alternativas sem combustão poderiam acelerar a redução global do tabagismo.
- O que há de errado com a OMS? Dez fundamentos sobre tabaco e nicotina — crítica à forma como instituições internacionais tratam os riscos relativos, o uso juvenil e o mercado ilícito.
- Por que a EVALI não foi causada pelo vaping de nicotina — texto que examina a relação entre o surto ocorrido nos Estados Unidos, o acetato de vitamina E e produtos ilícitos de THC.
Como material complementar, o site de Bates também oferece resumos de evidências para formuladores de políticas, inclusive em português, abordando risco comparativo, substituição do cigarro, uso por jovens, regulação e nicotina.
Entrevista Direta – Setembro de 2026
Perguntas de Alexandro Lucian
As autoridades de saúde brasileiras, incluindo o Ministério da Saúde e a Anvisa, adotam uma posição fortemente negativa em relação aos produtos alternativos de nicotina, particularmente os vapes. Os sachês de nicotina são mais recentes e ainda não recebem muita atenção. Você argumenta que produtos de nicotina não combustíveis podem ser substancialmente menos nocivos do que fumar. Diante de posições tão diferentes, por que os brasileiros deveriam confiar na sua interpretação das evidências em vez de confiar em suas próprias autoridades de saúde?
CLIVE BATES: Eu procuro construir um argumento persuasivo baseado em evidências e raciocínio, e me responsabilizo por questionamentos de qualquer pessoa. Na verdade, não espero nem quero a confiança incondicional de ninguém. Esta área da ciência e de diretrizes é tão política que acho que todos deveriam ser céticos em relação a tudo o que ouvem, não importa quão importante ou autorizada a fonte pareça ser, incluindo as autoridades de saúde do Brasil. No caso dos produtos de nicotina sem fumaça, nós nos baseamos em estudos de biomarcadores, ou seja, medições de substâncias tóxicas no sangue, na saliva e na urina dos usuários. Essas evidências mostram que as pessoas que usam esses produtos são expostas a níveis muito menores e em quantidades muito menores das substâncias tóxicas que causam câncer, doenças cardiovasculares e doenças respiratórias. A partir disso, podemos inferir que esses produtos causarão muito menos dano ao corpo. Também existem outras evidências que corroboram isso. Sem viajar no tempo, não podemos ter sessenta anos de epidemiologia para confirmar esse julgamento, mas sabemos o suficiente para termos confiança de que o uso exclusivo desses produtos é muito menos arriscado do que fumar, embora provavelmente não seja livre de risco.
As evidências se sustentam por si mesmas, e onde existem incertezas residuais, temos que fazer julgamentos. Alguns argumentam que, para resolver a questão de saber se vapes e sachês são mais seguros do que fumar, precisamos esperar seis décadas para termos uma epidemiologia definitiva. Eu discordo de impor esse tipo de paralisia em cima do muro à tomada de decisão, especialmente porque nossa procrastinação pode estar negando a milhões de pessoas alternativas que salvam vidas em relação ao cigarro. Temos que fazer os melhores julgamentos possíveis com as informações que temos, e não simplesmente adiar para sempre.
No Brasil, o vaping é rotineiramente associado à EVALI, ao “pulmão de pipoca”, ao câncer e a afirmações de que um único vape pode equivaler a dezenas ou até centenas de cigarros. De forma mais ampla, a própria nicotina costuma ser tratada como a principal fonte de dano relacionado ao tabagismo. O que as evidências realmente mostram sobre essas afirmações e sobre os riscos da nicotina em si?
CLIVE BATES: Há uma confusão surpreendente sobre os riscos do vaping, e parte dessa confusão e dessas dúvidas foi criada e espalhada deliberadamente para dissuadir as pessoas de usar esses produtos ou como parte de campanhas por uma regulação hostil ao vaping. O surto de EVALI é um exemplo claro disso. Em 2019, houve um surto de doença pulmonar grave que hospitalizou mais de 3 mil americanos e causou a morte de 68 pessoas. Nos primeiros meses, houve incerteza sobre a causa, mas logo ficou claro que se devia a um agente de diluição, o acetato de vitamina E, adicionado para diluir vapes de canábis à base de óleo, e que não tinha absolutamente nada a ver com o vaping de nicotina. Você pode ler meu relato detalhado sobre por que a nicotina não estava envolvida no site de preprints Qeios. No entanto, a dúvida foi deixada no ar, e nenhuma correção oficial foi emitida. O efeito disso foi afastar as pessoas do vaping. Talvez existam ativistas ou profissionais que acreditem que isso não importa muito, desde que reduza o vaping, mas eu discordo fortemente. As pessoas podem reagir continuando a fumar ou voltando a fumar, e é antiético manipular os usuários com desinformação, incluindo a omissão de informações corretivas relevantes.
Ouvimos falar o tempo todo sobre o “pulmão de pipoca”, também conhecido como bronquiolite obliterante. Ele foi associado a exposições muito altas ao agente aromatizante diacetil entre trabalhadores de uma fábrica de pipoca. É uma condição respiratória realmente grave. O mesmo agente aromatizante já foi usado em alguns vapes para dar um sabor amanteigado, mas hoje é raramente utilizado. No entanto, o ponto relevante é que não há casos conhecidos de bronquiolite obliterante atribuíveis ao vaping. É um risco puramente hipotético, completamente desconectado da realidade. A premissa central da toxicologia é que “a dose faz o veneno” (frase atribuída ao cientista suíço do século XVI Paracelso). Este é um ponto crítico na ciência do vaping: a presença de um agente potencialmente perigoso não implica que exista risco de dano. O que importa é a magnitude da exposição. Existe uma disciplina inteira, a segurança ocupacional, dedicada a determinar quanto de exposição é excessiva e quanto é aceitavelmente seguro. Além disso, devemos sempre fazer a comparação com o cigarro, que ainda é a forma dominante de consumo de nicotina no mundo. Os cigarros expõem os usuários a níveis muito mais altos de diversas substâncias tóxicas, incluindo o diacetil, a substância associada ao pulmão de pipoca.
A nicotina é outro risco amplamente incompreendido. A nicotina é o principal motivo pelo qual as pessoas fumam ou vaporizam, mas a grande maioria do dano é causada por outras substâncias, principalmente pelos produtos da combustão na fumaça do cigarro. A nicotina não é classificada como cancerígena e não é a principal causa das doenças causadas pelo tabagismo. A nicotina é um estimulante e tem efeitos imediatos no corpo, mas não é a causa dos principais efeitos cardiovasculares do tabagismo. A maior parte do risco dos produtos de nicotina para consumo decorre de como a nicotina é administrada ao corpo: a forma mais perigosa é a inalação da fumaça do tabaco, e a menos perigosa seria a absorção pela boca por meio de sachês de nicotina. Mas, de longe, a maior diferença está em saber se o produto envolve combustão ou se é livre de fumaça.
Apesar da proibição da venda de vapes desde 2009, 29,6% dos estudantes brasileiros entre 13 e 17 anos relataram já tê-los experimentado em 2024. Os adultos também não têm acesso legal a outros produtos de nicotina de menor risco, como os sachês de nicotina. Manter esses produtos fora do mercado legal realmente protege os jovens e os consumidores adultos, ou um mercado regulado poderia oferecer salvaguardas melhores?
CLIVE BATES: A estatística ilustra a insensatez da abordagem adotada pelas autoridades brasileiras. Isso se baseia em um mal-entendido simples: proibir algo não faz com que isso desapareça; significa apenas que passa a ser fornecido de outra forma. A melhor maneira de proteger os jovens é evitar a formação de um mercado ilícito, garantindo que a demanda razoável dos adultos seja atendida pelo varejo normal. A pior ideia é entregar esse comércio a redes criminosas, que não vão vender apenas vapes, mas uma ampla gama de bens e serviços ilegais a qualquer pessoa que tenha dinheiro, vão atrair jovens como fornecedores, vão vender produtos não regulamentados de qualidade e validade desconhecidas, e vão regular o comércio por meio de violência, extorsão e corrupção.
Um mercado regulado significa que a grande maioria dos produtos e vendedores cumpre padrões básicos de proteção ao consumidor, que há pouco incentivo para comprar produtos ilegais e, portanto, pouco incentivo para vendê-los, e que padrões razoáveis, como restrições de idade, podem ser esperados dos varejistas. Por meio da proibição, de uma regulação excessivamente restritiva ou de uma tributação desproporcional, os governos criam oportunidades lucrativas para redes criminosas. Na minha opinião, isso é extremamente irresponsável. O trabalho de um regulador de saúde pública é proteger a saúde e o bem-estar da população. Ele não pode fazer isso se afastando, se escondendo atrás de proibições e esperando que a polícia limpe a bagunça resultante. Já deveríamos saber disso pela guerra às drogas.
Pesquisadores e organizações no Brasil que discutem os menores riscos do vaping ou dos sachês de nicotina são frequentemente acusados de promover interesses da indústria do tabaco. Como as preocupações legítimas sobre a influência da indústria deveriam ser separadas de tentativas de desacreditar evidências ou silenciar o debate sobre redução de danos?
CLIVE BATES: Devemos deixar que as evidências e os argumentos resistam ao escrutínio e ao questionamento, independentemente de quem os esteja apresentando. A abordagem mais preguiçosa e mais perigosa é simplesmente descartar tudo o que a indústria diz como falso e tudo o que ela sugere como equivocado. Se eu apresento um argumento, não deixo de estar certo simplesmente porque uma empresa de tabaco concorda comigo. E os ativistas do controle do tabaco não estão automaticamente certos se uma empresa de tabaco discorda deles.
Existem preocupações legítimas sobre a influência excessiva do setor do tabaco na formulação de políticas. Mas essas preocupações não são novidade alguma: o mesmo se aplicaria às empresas madeireiras nas políticas de biodiversidade, às empresas de energia nas políticas climáticas e às montadoras nas políticas de poluição do ar. Portanto, todos deveriam estar em alerta e ser céticos. Mas, da mesma forma, isso não significa que essas empresas não tenham nada de útil a dizer ou que devamos assumir acriticamente a posição contrária. Por exemplo, as empresas madeireiras podem ter conhecimentos valiosos sobre manejo florestal sustentável e programas de benefícios para comunidades. As empresas de energia têm conhecimentos sobre a transição para as renováveis e outras tecnologias de baixo carbono. As montadoras entendem as barreiras à adoção de veículos elétricos. Isso não significa que devemos acreditar em tudo o que essas indústrias dizem, mas que deveríamos, pelo menos, estar dispostos a ouvir.
É o mesmo com (algumas) empresas de tabaco e de vapes. Muitas têm conhecimentos sobre a migração para produtos de nicotina de menor risco, as barreiras à migração de fumantes para produtos mais seguros e os efeitos da regulação e da tributação. Não acho que devemos acreditar acriticamente em tudo o que elas dizem, mas deveríamos ouvir e pensar a respeito. Isso também se aplica às autoridades de saúde, que muitas vezes presumem que as pessoas vão acreditar em tudo o que elas dizem e raramente estão abertas ao questionamento público.
Se você fosse convidado a desenhar a estratégia de nicotina e tabaco do Brasil hoje, quais medidas priorizaria para reduzir o tabagismo, proteger os jovens e substituir o mercado ilícito de vapes por uma regulação proporcional ao risco?
CLIVE BATES: A mudança mais importante é a virada estratégica para focar principalmente no tabagismo. Eu reverteria a hostilidade do Brasil em relação ao vaping e às abordagens de redução de danos, e garantiria um foco único na eliminação do tabagismo. Uma vez que isso esteja claro, muito do resto seguiria naturalmente. Uma abordagem de regulação proporcional ao risco se aplicaria a todos os produtos de nicotina para consumo, com o objetivo orientador de manter esses mercados sob controle legal. Os reguladores buscariam desestimular o tabagismo com impostos, restrições de produtos, exigências de embalagem, advertências e proibições de publicidade. Para os vapes, o objetivo seria a proteção do consumidor e informar os consumidores sobre o valor de migrar do cigarro para o uso de nicotina sem fumaça.
Não há muito que se possa fazer para impedir que adolescentes experimentem coisas que os adultos usam, mas um ambiente de varejo organizado, controles sobre marketing e marcas voltados para jovens, e campanhas de informação pública poderiam ajudar. Também precisamos de uma visão realista do risco para os jovens: em alguns casos, há jovens que passam a vaporizar, mas que, de outra forma, teriam começado a fumar. Para eles, o vaping na juventude é um benefício considerável.
Perguntas bônus — respostas rápidas
DIRETA: Você já liderou a Action on Smoking and Health (ASH) no Reino Unido e hoje é um dos mais proeminentes defensores da redução de danos do tabagismo. Que experiências moldaram seu pensamento sobre nicotina e redução de danos?
CLIVE BATES: Conhecer vapers e ver a diferença transformadora que isso fez em suas vidas. Muitas vezes, eram pessoas que haviam lutado por anos contra o tabagismo, e tudo tinha falhado.
DIRETA: Estudos sobre vaping frequentemente geram manchetes aparentemente contraditórias. Depois de anos de pesquisa, o que podemos afirmar hoje com razoável confiança sobre os riscos do vaping em comparação com o cigarro, e quais incertezas importantes permanecem?
CLIVE BATES: Sabemos, além de qualquer dúvida razoável, que o vaping é muito menos arriscado do que fumar e que provavelmente representa uma pequena fração do risco do cigarro. Isso não significa que seja livre de risco. O que falta é uma epidemiologia de longo prazo que mostre eventuais riscos elevados no nível populacional. Vale notar que essa incerteza também se aplica aos riscos decorrentes dos efeitos de longo prazo das políticas anti-vaping. Será que essas políticas vão obstruir a redução de danos, proteger o tabagismo e aumentar os problemas de saúde?
DIRETA: A maioria das pessoas não consegue ler e avaliar criticamente centenas de artigos científicos por conta própria. Como os consumidores podem distinguir boas evidências de estudos fracos, manchetes enganosas e ativismo apresentado como ciência?
CLIVE BATES: Acho que os defensores do vaping fazem um trabalho bastante bom ao ajudar as pessoas comuns a navegar pelo pântano de afirmações e contra-afirmações. Eu me associaria a uma associação de consumidores e seguiria, nas redes sociais, pessoas que você considera convincentes.
DIRETA: Quais países atualmente oferecem os melhores — e os piores — exemplos de regulação da nicotina, e o que o Brasil deveria aprender com eles?
CLIVE BATES: Nenhum país faz isso corretamente, e é muito mais fácil encontrar exemplos do que não fazer. Eu começaria pela Nova Zelândia, que obteve ganhos enormes na redução do tabagismo, especialmente entre seus grupos marginalizados, que historicamente têm níveis altos de tabagismo.
DIRETA: Se os fumantes passarem a acreditar que o vaping é tão perigoso quanto fumar, quem é responsável por essa percepção equivocada: a mídia, as autoridades de saúde pública, os pesquisadores, a indústria ou a própria comunidade de redução de danos?
CLIVE BATES: A culpa recai sobre as pessoas que deveriam estar se comunicando com veracidade com o público: as autoridades de saúde, os acadêmicos, a mídia e os ativistas de saúde pública.




