Políticas públicas pragmáticas de combate ao tabagismo mostram o quanto o Brasil está distante de estratégias adotadas em outros países para ajudar adultos a abandonar os cigarros. A Inglaterra oferece um exemplo claro.
Em setembro de 2026, o NHS, serviço público de saúde inglês comparável em vários aspectos ao SUS, lançou mais uma edição da Stoptober, campanha anual que incentiva pessoas a passar 28 dias sem fumar. A edição começou em 17 de setembro e segue até 1º de novembro. Segundo o Departamento de Saúde e Assistência Social britânico, busca divulgar as formas de apoio disponíveis nacional e localmente e aumentar as tentativas bem-sucedidas de cessação.

O site do NHS oferece ferramentas gratuitas, orientações para controlar a vontade de fumar e alternativas para abandonar o cigarro. Entre elas estão os cigarros eletrônicos. Enquanto a comercialização de vapes permanece proibida no Brasil, o NHS ensina adultos que fumam como usar cigarros eletrônicos com nicotina para parar de fumar.
O que o NHS diz sobre cigarros eletrônicos?
Segundo o NHS, usar um vape com nicotina é menos prejudicial do que fumar e está entre as ferramentas mais eficazes para abandonar o cigarro. Vapes expõem os usuários a menos toxinas e em níveis inferiores aos encontrados na fumaça dos cigarros. O serviço ressalta, porém, que não são isentos de riscos e que crianças e pessoas que não fumam não devem usá-los.
Redução de danos significa reconhecer os diferentes riscos das formas de consumir nicotina. Para quem já fuma, substituir completamente o cigarro por uma alternativa sem combustão reduz drasticamente a exposição às substâncias tóxicas geradas pela queima do tabaco. Essa distinção orienta as informações do NHS.
Vapes realmente ajudam a parar de fumar?
A atualização da revisão sistemática viva da Cochrane, com evidências até janeiro de 2026, encontrou evidência de alta certeza de que cigarros eletrônicos com nicotina aumentam as taxas de cessação em comparação com terapias de reposição de nicotina, como adesivos e gomas. A análise reuniu 90 estudos concluídos e 29.044 participantes. Na comparação direta, o risco relativo de cessação foi de 1,59, equivalente a aproximadamente quatro pessoas adicionais deixando de fumar a cada 100 tratadas.
Ao comunicar essa evidência ao público, o NHS afirma que quem usa vapes com nicotina tem aproximadamente o dobro da probabilidade de parar de fumar em comparação com quem usa adesivos ou gomas.
A Inglaterra distribui vapes para fumantes
Em 2023, o governo anunciou o Swap to Stop, programa concebido para oferecer kits iniciais de cigarros eletrônicos e apoio comportamental a até um milhão de pessoas que fumavam, cerca de uma em cada cinco na Inglaterra naquele momento. O governo o descreveu como a primeira política nacional desse tipo no mundo.
O país também adotou medidas para restringir o acesso de crianças e adolescentes. A política distingue desencorajar o uso entre jovens e não fumantes de permitir que adultos que fumam acessem uma alternativa de menor risco.
O objetivo é chegar a 5% ou menos de fumantes, objetivo já alcançado pela Suécia
O governo britânico estabeleceu a meta de tornar a Inglaterra smokefree, definida como prevalência de tabagismo de 5% ou menos entre adultos. A meta foi originalmente fixada para 2030.
A Suécia já ultrapassou esse marco, sendo o principal exemplo de políticas de saúde pública de sucesso na luta contra o tabagismo. Segundo o relatório Vanor och konsekvenser 2025, do CAN, Conselho Sueco de Informação sobre Álcool e Outras Drogas, 3,7% das pessoas de 18 a 84 anos fumavam diariamente em 2025. O CAN aponta que o país atingiu sua meta para 2025 de reduzir o tabagismo regular a menos de 5%. Entre 2013 e 2025, a prevalência diária caiu 62%.
A Suécia combinou medidas tradicionais de controle do tabagismo com a disponibilidade de alternativas sem combustão para adultos. Snus, sachês de nicotina, cigarros eletrônicos e produtos de tabaco aquecido coexistem sob diferentes estruturas regulatórias.
Dados da Comissão Europeia baseados no Global Burden of Disease 2023 estimam 77 mortes atribuíveis ao tabagismo ativo por 100 mil habitantes na Suécia, contra 105 por 100 mil na União Europeia. A fonte alerta que diferenças na estrutura etária, entre outros fatores, podem influenciar comparações entre países.
Como parar de fumar usando vapes, segundo o NHS
O material educativo do NHS explica quais aparelhos usar, como escolher a concentração de nicotina de acordo com o consumo anterior, por que é importante controlar a abstinência e onde buscar orientação especializada.

O NHS recomenda começar com uma concentração compatível com a quantidade e a frequência com que a pessoa fumava, usar o vape diariamente durante a substituição e completar a transição, pois continuar fumando mantém os riscos do cigarro. Também orienta a compra em estabelecimentos confiáveis, com produtos sujeitos às normas britânicas de segurança e qualidade. Essas recomendações evidencia o contraste com o Brasil.
O vídeo do NHS que o Direta legendou para o português
O Direta legendou em português brasileiro um vídeo educativo do NHS sobre o uso de cigarros eletrônicos para abandonar o cigarro:
O vídeo afirma:
“Mudar para o vape é uma forma eficaz de parar de fumar de vez.”
“Trocar os cigarros pelos vapes elimina imediatamente a maior parte das toxinas nocivas.”
Também explica que a semelhança entre fumar e usar um vape pode facilitar a substituição para algumas pessoas. A página do NHS cita o movimento da mão até a boca, a sensação na garganta e outros aspectos do comportamento de fumar.
E a nicotina?
Segundo o NHS, a nicotina causa dependência, mas não contém as substâncias tóxicas da fumaça do cigarro. São os demais componentes tóxicos da fumaça e os produtos da combustão que respondem pela maior parte dos danos do tabagismo. O serviço afirma que a nicotina isoladamente não é responsável pelas doenças normalmente associadas ao tabagismo, como câncer, doenças pulmonares, doenças cardiovasculares e AVC.
O vídeo explica que vapes fornecem nicotina de modo menos intenso do que os cigarros. Por isso, usá-los com maior frequência do que se fumava não significa exposição maior ou equivalente aos danos do cigarro. A orientação busca controlar a vontade de fumar e evitar a recaída para o produto com combustão.
O contraste com o Brasil
Acessar o site oficial do NHS, ler seu conteúdo e assistir a um vídeo tão didático oferece um choque de realidades e uma imensa frustração com a situação no Brasil. O conteúdo traz informação completamente oposta a tudo o que encontramos por aqui.
Nas redes sociais e na imprensa brasileira, médicos, autodenominados “especialistas” e organizações de saúde fazem afirmações frontalmente contrárias às orientações do NHS.
São frequentes matérias na imprensa que afirmam que vapes são tão ou mais prejudiciais que cigarros convencionais, causam “pulmão de pipoca” ou EVALI, ou entregam mais nicotina que os cigarros. Até o próprio Ministério da Saúde divulga informações que alimentam essa desinformação.
Entretanto, basta um olhar mais crítico e aprofundado para não encontrar sustentação técnica e científica para tais alegações. Raramente encontramos fontes atreladas ao conteúdo publicado contra os vapes e quando isso ocorre, são produções feitas pelas mesmas organizações que combatem sua regulamentação. Usam de fonte trabalhos produzidos por eles mesmos.
Não é à toa que, em uma pesquisa da organização Ipsos, 90% dos usuários de tabaco entrevistados no Brasil consideraram vapes tão ou mais prejudiciais à saúde que cigarros convencionais. É difícil imaginar uma falha mais grave na comunicação sobre redução de danos.
Esse cenário permitiu que a proibiçao dos vapes fosse perpetuada. A Anvisa proíbe desde 2009 a comercialização e a importação de dispositivos eletrônicos para fumar. A RDC 855/2024 manteve a proibição e incluiu fabricação, distribuição, armazenamento, transporte e propaganda. O uso individual não foi proibido.
Na Inglaterra, onde o vape é devidamente regulamentado e controlado, o NHS explica como escolher um dispositivo e uma concentração de nicotina, buscar apoio profissional e adquirir produtos sujeitos a normas de qualidade. No Brasil, quem decide usar essa estratégia não tem acesso a um mercado legal e regulado de vapes. Enquanto o sistema inglês oferece diferentes caminhos para deixar de fumar, incluindo vapes, a Anvisa recomenda não usá-los e proíbe sua comercialização e importação.
Proibir o produto não significa eliminar seu consumo
A proibição não tornou o Brasil um país sem vapes. Quem os usa não pode recorrer à estrutura recomendada pelo NHS aos ingleses: varejistas legítimos e produtos sujeitos a regras de composição, qualidade, rotulagem e fiscalização.
O 1º Levantamento Nacional sobre a Demanda de Bens e Serviços Ilícitos no Brasil, realizado pela Escola de Segurança Multidimensional da USP em parceria com a Ipsos Brasil, estimou que 9,9 milhões de adultos brasileiros consumiram cigarros eletrônicos nos três meses anteriores à pesquisa. O mercado ilegal desses produtos movimentaria R$ 7,81 bilhões por ano, dos quais cerca de R$ 7,05 bilhões em cigarros eletrônicos.
Segundo dados oficiais da Receita Federal, o valor dos vapes apreendidos subiu de R$ 2,3 milhões em 2020 para R$ 179,4 milhões em 2024, aumento aproximado de 7.700%. As apreensões somaram cerca de R$ 312,7 milhões entre 2020 e 2024. Só de 2023 para 2024, o valor quase triplicou, de R$ 61,8 milhões para R$ 179,4 milhões. Em 2025, os cigarros eletrônicos foram o quinto maior grupo de mercadorias apreendidas em valor, totalizando R$ 163,8 milhões, segundo o governo federal.
Mais de quinze anos após a proibição, milhões de consumidores são abastecidos por um mercado ilegal bilionário, fora do comércio formal e de qualquer controle sanitário estabelecido pela Anvisa. O Brasil pode proibir a venda formal, mas isso não elimina o consumo, apenas determina que quem abastece os consumidores é apenas o mercado ilegal, sem qualquer controle dos produtos fabricados e vendidos. Essa é uma questão de segurança pública e redução de danos.
Dois países, duas respostas para uma mesma pessoa
Imagine dois adultos que fumam e querem parar. Na Inglaterra, um deles encontra uma campanha nacional, informações sobre diferentes métodos, apoio comportamental e orientações detalhadas sobre vapes. Dependendo do serviço local, pode receber um kit inicial gratuitamente.
No Brasil, o outro precisa procurar um produto cuja venda é proibida e que circula fora do mercado formal. Sem fiscalização sanitária, ele pode estar contaminado ou conter nicotina em quantidade ou qualidade inadequada. Esses fatores podem fazer com que determinados produtos apresentem riscos tão altos quanto os do cigarro ou até maiores.
Qual dessas políticas oferece ao adulto que fuma melhores condições para abandonar o produto responsável pela maior parte dos danos?
Transcrição completa do vídeo do NHS
“Parar de fumar cigarros contando apenas com a força de vontade pode ser difícil. Mudar para o vape é uma forma eficaz de parar de fumar de vez.
Os vapes de nicotina são dispositivos eletrônicos que permitem inalar nicotina na forma de aerossol ou vapor, em vez de fumaça. Os vapes não contêm o tabaco que causa câncer e, por isso, são substancialmente menos prejudiciais do que fumar.
Trocar os cigarros pelos vapes elimina imediatamente a maior parte das toxinas nocivas. Como o ato de usar um vape é semelhante ao de fumar, você pode achar muito mais fácil abandonar o cigarro.
No entanto, é importante lembrar que usar vape não é totalmente isento de riscos. Crianças e pessoas que não fumam nunca devem usar vapes.
Aqui estão algumas dicas para ajudar você a parar de fumar com o auxílio de vapes de nicotina:
Escolha o dispositivo adequado. Encontrar a concentração certa de nicotina para o seu e-líquido pode levar algum tempo, portanto, não desista. O serviço local de apoio para parar de fumar pode ajudar, além de oferecer suporte comportamental.
Use o vape sempre que precisar para controlar a vontade de fumar. Os vapes fornecem doses de nicotina menos intensas do que os cigarros, portanto, não se preocupe se estiver usando o vape com mais frequência do que costumava fumar.
Se precisar, experimente usar adesivos de nicotina como apoio contínuo, pois eles liberam nicotina lentamente. Depois, você pode complementar com o vape para controlar a vontade imediata de fumar.
Converse com outras pessoas que já trocaram o cigarro pelo vape. Saber que outras pessoas passaram pelo que você está enfrentando pode ajudar.
Não tenha receio de buscar apoio especializado gratuito. Quase dois terços das pessoas que usam vape e também recebem apoio comportamental de seu serviço local de apoio para parar de fumar conseguem abandonar o cigarro.”
Perguntas frequentes
O NHS recomenda cigarros eletrônicos para parar de fumar?
Sim. O NHS os considera uma das ferramentas mais eficazes e orienta seu uso para substituir completamente os cigarros.
Cigarros eletrônicos são menos prejudiciais do que cigarros?
Segundo o NHS, expõem o usuário a menos toxinas e em níveis inferiores aos do cigarro, embora não sejam isentos de riscos.
Há evidências de que vapes ajudam a parar de fumar?
Sim. A revisão Cochrane atualizada em 2026 encontrou evidência de alta certeza de taxas de cessação maiores com vapes de nicotina do que com terapias de reposição de nicotina.
Cigarros eletrônicos são permitidos no Brasil?
O uso individual não é proibido. A Anvisa proíbe fabricação, importação, comercialização, distribuição, armazenamento, transporte e propaganda.
Pessoas que nunca fumaram deveriam começar a usar vapes?
Não. O NHS orienta crianças e pessoas que não fumam a não usar esses produtos.
