Quando pensamos em nicotina, é quase automático pensar no cigarro. É por isso que, mesmo quando vamos falar de “produtos sem combustão”, o que o cigarro certamente não é, precisamos primeiro falar dele.
Durante grande parte do século XX, o cigarro foi, de longe, a forma mais conhecida e difundida de consumir nicotina no mundo. Mas nem sempre foi assim. O tabaco é utilizado há séculos e, muito antes da popularização do cigarro, já era fumado em cachimbos, mascado ou transformado em pó para ser aspirado pelo nariz.
O cigarro moderno começou a ganhar espaço no século XIX, mas uma inovação industrial mudou completamente sua história. Em 1881, o norte-americano James Bonsack recebeu a patente de uma máquina capaz de produzir cigarros automaticamente, em uma escala impossível para a fabricação manual. A produção em massa, a publicidade e, posteriormente, a distribuição de cigarros durante as guerras ajudaram a transformá-lo em um dos produtos de consumo mais difundidos do século XX.
Com ele, também se consolidou uma associação que permanece até hoje: para muita gente, consumir nicotina significa fumar.
Mas a nicotina nunca dependeu exclusivamente da combustão para chegar ao organismo. Um bom exemplo vem da Suécia, onde o snus, uma forma de tabaco úmido utilizada na boca, normalmente sob o lábio superior, tem uma longa história de consumo. Em vez de acender o tabaco e inalar sua fumaça, o consumidor absorve a nicotina pela mucosa oral. Não há fogo nem inalação de fumaça.
O snus é pouco conhecido no Brasil, mas ajuda a entender um ponto fundamental: produto de nicotina e cigarro não são sinônimos. Existem diferentes maneiras de fornecer nicotina ao organismo, e os produtos variam muito em composição, forma de uso, velocidade de absorção e perfil de exposição.
Nas últimas décadas, essa diferença ficou mais evidente com o desenvolvimento de novas tecnologias. A mais conhecida no Brasil é provavelmente o cigarro eletrônico, também chamado de vape, que utiliza uma bateria para aquecer um líquido e produzir um aerossol inalável sem queimar tabaco. Outras categorias ganharam espaço internacionalmente, como os produtos de tabaco aquecido e os sachês de nicotina.
Esse universo é ainda maior. Rapé, tabaco mascável, snuff, dip, tabaco dissolvível e preparações tradicionais como nasvay, gutka e toombak também permitem o consumo de nicotina sem a combustão característica do cigarro.
Existem, porém, diferenças enormes entre eles. A ausência de combustão é uma característica importante, mas não garante, sozinha, que um produto tenha baixo risco. Preparações artesanais como o nasvay podem apresentar níveis elevados e muito variáveis de nicotina, nitrosaminas cancerígenas e contaminantes. Produtos que contêm noz de areca acrescentam outro agente cancerígeno à mistura.
É esse conjunto bastante diverso que vamos explorar neste artigo. Você entenderá quais são os principais produtos sem combustão, como funcionam, como a nicotina é absorvida, o que os diferencia do cigarro e por que retirar a combustão é tão importante, mas não suficiente, para compreender seus diferentes perfis de risco.
“Produtos sem combustão” é uma categoria oficial?
Nem sempre. A expressão funciona principalmente como um termo guarda-chuva: ela reúne produtos que não dependem da queima do tabaco durante o uso, mas não corresponde necessariamente a uma única categoria científica, comercial ou regulatória.
Um vape, um sachê de nicotina e um rapé têm pouco em comum além de não produzirem a fumaça típica da combustão. Um pode aquecer líquido e gerar aerossol; outro libera nicotina na boca; o terceiro contém tabaco em pó e é aspirado pelo nariz. Alguns contêm folha de tabaco, outros utilizam nicotina sem material de tabaco, e alguns nem sequer contêm nicotina.
Por isso, o termo é útil para explicar o mecanismo geral, mas não deve substituir a identificação da categoria específica. Também não são incluídos produtos nos quais há queima, mesmo que a fumaça passe por água ou seja resfriada. Narguilé, cachimbo, charuto, cigarrilha, bidi e cigarro de palha continuam sendo produtos combustíveis.
O que significa um produto sem combustão?
Um produto sem combustão é aquele que não depende da queima do tabaco para ser utilizado. A combustão ocorre quando o cigarro é aceso e o tabaco, o papel e outros componentes passam a queimar, produzindo fumaça. Essa fumaça carrega nicotina, mas também monóxido de carbono, partículas e milhares de substâncias químicas, incluindo compostos tóxicos e cancerígenos produzidos ou intensificados pelo processo de queima.
Nos produtos sem combustão, a nicotina chega ao organismo por outros caminhos:
· nos vapes e nos produtos de tabaco aquecido, ela é inalada em um aerossol;
· nos sachês, no snus e em outras formas de uso oral, é absorvida principalmente pela mucosa da boca;
· no rapé e em outros tipos de snuff seco, é absorvida pela mucosa nasal;
· nos adesivos de reposição de nicotina, atravessa a pele.
Portanto, “sem combustão” descreve a ausência de queima durante o uso. Não descreve um formato único, não significa ausência de substâncias tóxicas e não estabelece, por si só, um nível de risco.
Por que a combustão é tão importante para entender os riscos do cigarro?
Grande parte da carga de doenças provocada pelo tabagismo está ligada à inalação repetida da fumaça da combustão. Quando um cigarro é aceso, a pessoa não recebe apenas nicotina: ela inala gases, partículas finas e compostos tóxicos relacionados a câncer, doenças cardiovasculares e doenças respiratórias.
O monóxido de carbono reduz a capacidade do sangue de transportar oxigênio. As partículas da fumaça, frequentemente reunidas no termo “alcatrão” quando se mede a fumaça do cigarro, carregam uma mistura de substâncias tóxicas e cancerígenas. A exposição se repete tragada após tragada e, para quem fuma diariamente, pode continuar durante muitos anos.
A nicotina é a principal substância responsável por sustentar a dependência, mas não é a principal causa das doenças associadas ao cigarro. Isso não significa que seja inofensiva. Ela pode aumentar temporariamente a frequência cardíaca e a pressão arterial, provocar intoxicação em doses elevadas e oferece riscos especiais durante a gestação. Crianças, adolescentes, gestantes e pessoas que não utilizam nicotina não devem iniciar o consumo desses produtos. Para entender melhor essa substância e sua ação no organismo, leia também Nicotina: o que é, como funciona e efeitos.
Separar dependência de toxicidade ajuda a compreender o princípio da redução de danos: o modo como a nicotina é fornecida modifica profundamente o conjunto e a intensidade das exposições. Ao mesmo tempo, a comparação precisa ser feita produto por produto. Algumas preparações sem combustão contêm tabaco, nitrosaminas, noz de areca, cal, cinzas, metais ou contaminantes capazes de acrescentar riscos próprios.
Quais são os principais produtos sem combustão?
Cigarros eletrônicos, vapes e pods
Cigarro eletrônico é o nome geral de uma categoria de dispositivos que utilizam bateria para aquecer um líquido e formar um aerossol, que é inalado pelo consumidor. Muitas pessoas confundem os termos e acreditam que “vapes” são diferentes de “pods” ou de “cigarros eletrônicos”, mas vape e cigarro eletrônico são nomes usados para a mesma categoria geral de produtos.
O líquido pode conter nicotina, aromatizantes e substâncias que formam a base da solução, principalmente propilenoglicol e glicerina vegetal. Também existem produtos anunciados sem nicotina.
Pod é um tipo de vape, geralmente menor e mais simples, que funciona com cartuchos ou reservatórios chamados pods. Existem modelos descartáveis, recarregáveis, com refis fechados e com reservatórios que podem ser preenchidos.
Ao contrário do cigarro convencional, o vape não queima tabaco e não produz fumaça. O que sai do dispositivo é um aerossol, formado por pequenas gotículas e partículas suspensas no ar. Por isso, chamar essa emissão apenas de “vapor de água” também não é correto.
O aerossol não é quimicamente igual à fumaça do cigarro, mas também não é ar limpo. Sua composição depende do líquido, da potência, da temperatura, da resistência, do estado do equipamento e da maneira de uso.
Esse último aspecto é especialmente importante, pois algumas pesquisas sobre emissões apontaram níveis elevados de compostos nocivos, semelhantes ou até superiores aos encontrados na fumaça dos cigarros a combustão. Esses resultados foram posteriormente atribuídos a falhas metodológicas identificadas em revisões por pares e, em alguns casos, os estudos chegaram a ser retratados. Entre os problemas encontrados estavam testes realizados fora dos padrões normais de uso, com potência excessiva e superaquecimento do equipamento, capazes de gerar compostos em concentrações que não seriam observadas durante o uso habitual.
Isso demonstra a importância de uma regulamentação que obrigue os fabricantes a cumprir padrões de qualidade, segurança e funcionamento para esses produtos.
Ao longo dos anos, os cigarros eletrônicos passaram por diversas gerações e ganharam diferentes formatos: modelos semelhantes a cigarros, sistemas com tanques, dispositivos mais potentes, pods compactos e descartáveis. Apesar das diferenças de formato e tecnologia, todos pertencem à mesma categoria geral.
Produtos de tabaco aquecido
Os produtos de tabaco aquecido utilizam tabaco verdadeiro, porém processado e fabricado para um sistema específico, normalmente na forma de bastões, cápsulas ou unidades próprias.
O dispositivo é projetado para aquecer esse material sem a queima contínua característica do cigarro convencional, gerando um aerossol que contém nicotina.
A principal diferença em relação ao vape é o material aquecido. O cigarro eletrônico aquece um líquido; o produto de tabaco aquecido aquece tabaco processado. Embora os dois produzam aerossol e frequentemente dependam de um aparelho eletrônico, eles não pertencem à mesma categoria.
As emissões dos produtos de tabaco aquecido geralmente apresentam níveis menores de muitos constituintes nocivos do que a fumaça do cigarro.
O tabaco aquecido ainda é pouco conhecido dos brasileiros porque sua comercialização não é autorizada no país. Isso pode parecer estranho, já que os cigarros eletrônicos também têm o comércio proibido e, mesmo assim, são amplamente conhecidos e utilizados. Uma diferença importante está na estrutura desses mercados. Os principais sistemas de tabaco aquecido foram desenvolvidos e comercializados por grandes empresas de tabaco, com aparelhos e consumíveis proprietários. O mercado de vapes é muito mais descentralizado, pois não foi uma invenção da indústria tabagista e sim uma iniciativa de um farmacêutico chinês em 2003. De lá para cá, surgiram milhares de fabricantes e fornecedores, especialmente na China, abastecendo diferentes mercados. Produtos legalmente comercializados ou facilmente disponíveis em países próximos acabam entrando no Brasil por contrabando e comércio ilegal.
Em outros países, o tabaco aquecido alcançou presença. O Japão é o caso mais estudado. Produtos modernos da categoria começaram a chegar ao mercado japonês em 2014 e ganharam escala nacional nos anos seguintes. Pesquisas populacionais estimaram que o uso nos 30 dias anteriores passou de 0,2% entre pessoas de 15 a 69 anos em 2015 para 11,3% em 2019.
A transformação também apareceu nas vendas. Entre 2011 e 2023, as vendas totais de cigarros convencionais no Japão caíram 52,7%. Antes da expansão do tabaco aquecido, entre 2011 e 2015, as vendas per capita de cigarros caíam cerca de 1,5% ao ano. Entre 2015 e 2018, a queda acelerou para 10,5% ao ano e continuou em 7,3% ao ano entre 2018 e 2023, enquanto as vendas de unidades de tabaco aquecido cresciam. Em 2023, foram vendidas 92,2 bilhões de unidades de cigarros e 56,5 bilhões de unidades ou equivalentes de tabaco aquecido.
Esses números mostram uma importante substituição dos cigarros por produtos de tabaco aquecido no mercado japonês. O Japão tornou-se um dos exemplos mais claros de deslocamento do consumo de cigarros a combustão após a introdução de alternativas sem combustão.
Uma revisão Cochrane encontrou menor exposição a determinados compostos tóxicos entre pessoas que substituíram completamente o cigarro por produtos de tabaco aquecido, em comparação com aquelas que continuaram fumando. Nos Estados Unidos, a FDA autorizou produtos específicos do sistema IQOS a comunicar que a substituição completa dos cigarros reduz significativamente a exposição a substâncias químicas nocivas ou potencialmente nocivas, reconhecendo que sua comercialização pode beneficiar a saúde da população.
Uma revisão sistemática analisou a redução de danos associada aos produtos de tabaco aquecido em comparação com a continuidade do uso de cigarros combustíveis.
Sachês de nicotina
Os sachês de nicotina são uma das categorias mais recentes entre os produtos sem combustão. São pequenas bolsas colocadas entre o lábio e a gengiva. Não contém folha de tabaco e, em geral, são formados por fibras ou outros materiais de preenchimento, nicotina, aromatizantes, reguladores de pH, umectantes e ingredientes usados para dar estrutura, umidade e sabor.
Dentro da boca, a umidade dissolve parte do conteúdo, e a nicotina é absorvida pela gengiva e pela mucosa oral. Não existe aquecimento, inalação, fumaça ou aerossol. A nicotina pode ser extraída da planta do tabaco ou produzida sinteticamente.
A dose, o pH, a formulação e o tempo de uso influenciam quanto e quão rapidamente a nicotina é absorvida. Sachês de menor concentração podem fornecer menos nicotina do que um cigarro, enquanto produtos de alta concentração podem produzir exposição semelhante.
Em janeiro de 2025, a FDA autorizou a comercialização de 20 produtos ZYN nos Estados Unidos após avaliação prévia. Em junho de 2026, a agência deu um passo adicional e autorizou esses mesmos produtos a utilizar uma alegação específica de risco modificado: quando usados em vez de cigarros, apresentam menor risco de câncer de boca, doença cardíaca, câncer de pulmão, AVC, enfisema e bronquite crônica.
O DIRETA reúne informações mais detalhadas no artigo Sachês de nicotina: o que são e como funcionam.
Snus
O snus também é um produto de uso oral, tradicionalmente associado à Suécia. Ele pode ser vendido solto ou em pequenas bolsas colocadas sob o lábio superior. A nicotina é absorvida pela mucosa da boca, sem aquecimento, fumaça ou aerossol.
A diferença essencial é que o snus contém tabaco úmido e processado, enquanto os sachês de nicotina não contêm folha de tabaco. Como os dois podem ter aparência e forma de uso semelhantes, é comum que sejam confundidos ou chamados pelo mesmo nome, mas sua composição e classificação regulatória não são iguais.
Nos Estados Unidos, a FDA renovou a autorização para oito produtos específicos General Snus utilizarem uma alegação de menor risco em comparação com cigarros.
Rapé ou snuff seco
Rapé é uma forma de tabaco seco, moído ou pulverizado, destinada principalmente à aspiração pelo nariz. Em inglês, essa categoria costuma ser chamada de dry snuff. Ela não produz fumaça. A Anvisa diferencia o rapé do snus: o primeiro é aspirado, enquanto o segundo é colocado na boca.
A composição pode variar bastante. Além do tabaco, algumas preparações artesanais ou tradicionais incluem cinzas, ervas e outras plantas. Por isso, não é possível atribuir o mesmo perfil químico a todo produto vendido como rapé. A ausência de inalação de fumaça não elimina riscos locais, dependência nem a exposição a constituintes cancerígenos do tabaco.
Tabaco mascável, dip e snuff úmido
Tabaco mascável pode ser apresentado como folhas soltas, tiras, rolos, plugs ou porções destinadas a serem mascadas ou mantidas entre a bochecha e a gengiva. Dip e snuff úmido são formas de tabaco triturado e úmido colocadas na boca, normalmente entre o lábio ou a bochecha e a gengiva. Dependendo do produto, o usuário cospe a saliva durante o uso.
Esses produtos não passam por combustão, mas podem conter nitrosaminas específicas do tabaco e manter contato prolongado com a mucosa oral.
Tabaco dissolvível
Produtos de tabaco dissolvível podem ser fabricados como pastilhas, tiras finas, pequenos bastões ou outras unidades que se desfazem na boca. Diferentemente das terapias de reposição de nicotina, eles contêm tabaco ou componentes derivados do tabaco e são comercializados como produtos de consumo, não como medicamentos aprovados para cessação.
Nasvay e outras preparações tradicionais
Nasvay, também chamado nasvai, naswar, nass ou niswar, é uma preparação de tabaco sem fumaça encontrada principalmente na Ásia Central, no Sul da Ásia e em partes do Oriente Médio. Segundo a base da Convenção-Quadro da Organização Mundial da Saúde, pode conter tabaco, cal, cinzas, óleo ou manteiga, água, corantes e aromatizantes. Geralmente é colocado sob a língua ou entre a bochecha e a gengiva.
O produto merece uma categoria própria porque sua composição e sua fabricação podem ser pouco padronizadas. Análises laboratoriais encontraram grandes diferenças de nicotina, pH e nitrosaminas cancerígenas entre amostras. A cal e as cinzas podem elevar o pH e aumentar a fração de nicotina disponível para absorção.
A lista de produtos regionais é extensa:
· gutka: combina tabaco, noz de areca, cal e aromatizantes;
· khaini: mistura tabaco com cal;
· toombak: tabaco oral úmido tradicional do Sudão;
· shammah: utilizado em partes da Península Arábica;
· chimó: pasta de tabaco encontrada no norte da América do Sul;
· iqmik: preparação do Alasca que pode misturar tabaco e cinzas.
Também existem zarda, mawa, mishri, gudakhu, paan com tabaco e água de tabaco. Todos são utilizados sem queima, mas diferem muito em ingredientes, modo de uso e toxicidade. A noz de areca, presente em algumas misturas, é cancerígena por si mesma, mesmo sem tabaco.
Esses exemplos deixam claro por que “sem combustão” não deve ser usado como sinônimo de “risco reduzido”. A expressão descreve um mecanismo. Para avaliar os danos, é necessário observar o tipo de tabaco, o processamento, os níveis de nitrosaminas, a presença de noz de areca, metais, contaminantes e alcalinizantes, além da padronização da fabricação.
Terapias de reposição de nicotina também são produtos sem combustão?
Adesivos, chicletes, pastilhas, sprays e outros medicamentos de reposição de nicotina fornecem a substância sem queimar tabaco. Tecnicamente, portanto, também não envolvem combustão. No entanto, formam uma categoria diferente: são produtos terapêuticos desenvolvidos, avaliados e aprovados para tratar a dependência e auxiliar pessoas que desejam parar de fumar.
As terapias de reposição de nicotina possuem doses, indicações, advertências e padrões farmacêuticos próprios. Por isso, podem ser mencionadas no debate sobre alternativas ao cigarro, mas não costumam ser agrupadas comercial ou regulatoriamente com vapes, tabaco aquecido, sachês de nicotina e snus, que são considerados produtos de consumo.
Como a nicotina é absorvida e por que a velocidade importa?
A nicotina precisa atravessar tecidos do organismo e chegar à corrente sanguínea. A via de administração, a formulação e a dose determinam a velocidade, o pico de concentração e a duração do efeito.
Quando a fumaça ou o aerossol é inalado, a nicotina pode ser absorvida nos pulmões e chegar rapidamente ao cérebro. Essa velocidade ajuda a explicar por que produtos inalados podem reproduzir com mais facilidade a experiência imediata do cigarro. Nos produtos orais, a absorção ocorre principalmente pela mucosa da boca e tende a ser mais gradual. Adesivos liberam nicotina lentamente pela pele; chicletes e pastilhas terapêuticas utilizam a mucosa oral.
Não basta, portanto, comparar apenas a quantidade de nicotina declarada. Dois produtos com o mesmo número em miligramas podem liberar e entregar quantidades muito diferentes ao organismo. Essa diferença também ajuda a entender uma comparação enganosa bastante utilizada no debate sobre cigarros eletrônicos: olhar para um líquido com, por exemplo, 20 mg/mL de nicotina e compará-lo diretamente com o conhecido número de aproximadamente 1 mg associado a um cigarro, concluindo que o vape fornece vinte vezes mais nicotina.
Os números representam coisas diferentes. Um cigarro convencional pode conter cerca de 10 a 15 mg de nicotina bruta no tabaco, mas o fumante absorve normalmente apenas uma fração dessa quantidade, limitado no Brasil em 1 mg na fumaça de acordo com a RDC 14/2012. Já os 20 mg/mL indicados em um líquido para vape representam a concentração de nicotina existente em cada mililitro do líquido, e não a quantidade entregue em uma tragada ou absorvida pelo organismo. Estudos que medem a nicotina no sangue deixam essa diferença bastante clara. Uma meta-análise publicada em 2024, reunindo 30 estudos e 2.728 participantes, encontrou concentrações máximas de nicotina no sangue e exposição total à substância significativamente menores com cigarros eletrônicos, tanto em sistemas fechados quanto recarregáveis, quando comparados aos cigarros convencionais.
Por isso, afirmar simplesmente que um vape “tem vinte vezes mais nicotina que um cigarro” porque seu líquido contém 20 mg/mL é comparar medidas diferentes. O mesmo cuidado vale para sachês de nicotina: a quantidade presente no produto não é necessariamente igual à quantidade que será absorvida. Número de tragadas, potência do aparelho, frequência de uso e tempo que um sachê permanece na boca são alguns dos fatores que alteram a exposição.
Qual é a diferença entre os produtos sem combustão?
As categorias podem ser organizadas de acordo com o material utilizado, a presença de tabaco, a forma de absorção e a emissão durante o uso.

| Produto | O que utiliza | Contém material de tabaco? | Principal via de uso | Emissão durante o uso |
| Vape ou cigarro eletrônico | Líquido | Não | Inalação | Aerossol |
| Tabaco aquecido | Tabaco processado | Sim | Inalação | Aerossol |
| Sachê de nicotina | Nicotina e material de preenchimento | Não | Mucosa oral | Nenhuma emissão relevante para o ar |
| Snus | Tabaco úmido | Sim | Mucosa oral | Nenhuma emissão relevante para o ar |
| Rapé / snuff seco | Tabaco em pó | Sim | Mucosa nasal | Pode dispersar partículas de pó |
| Mascável / dip / snuff úmido | Folha ou tabaco triturado | Sim | Mucosa oral | Nenhuma emissão relevante para o ar |
| Tabaco dissolvível | Tabaco processado | Sim | Mucosa oral | Nenhuma emissão relevante para o ar |
| Nasvay e preparações regionais | Tabaco e ingredientes variáveis | Sim | Principalmente mucosa oral | Nenhuma emissão relevante para o ar |
| Reposição de nicotina | Nicotina em formulação farmacêutica | Não | Pele, boca ou cavidade nasal | Depende da apresentação; geralmente nenhuma |
Tabela 1. Comparação simplificada. Dentro de cada categoria existem produtos com formulações, concentrações e perfis de exposição diferentes.
Para uma comparação mais direta entre vapes, cigarros e sachês, acesse Qual a diferença entre sachês, vape e cigarro?.
Fumaça, vapor e aerossol são a mesma coisa?
Não. Fumaça é o conjunto de gases e partículas produzido pela combustão. Ela surge quando uma substância queima, como acontece no cigarro convencional.
Vapor, em sentido físico, é a fase gasosa de uma substância. O termo é popularmente usado para descrever a emissão de cigarros eletrônicos, mas pode induzir à ideia errada de que se trata apenas de água.
Aerossol é uma mistura de pequenas partículas sólidas ou gotículas líquidas suspensas em um gás. Vapes e produtos de tabaco aquecido produzem aerossóis por aquecimento. Essa emissão pode conter nicotina e outros constituintes.
Sachês de nicotina, snus, tabaco mascável e preparações como nasvay não produzem fumaça, vapor ou aerossol durante o uso, pois a absorção ocorre principalmente pela mucosa oral. O rapé também não produz fumaça, mas sua aspiração pode dispersar partículas de pó no ar e nas vias nasais.
Produtos sem combustão expõem outras pessoas?
Depende da categoria. Produtos orais, adesivos e rapé não produzem uma corrente contínua de fumaça ou aerossol. Isso reduz de forma importante a contaminação do ar em comparação com um cigarro aceso, embora resíduos, descarte inadequado e contato acidental ainda possam oferecer risco, especialmente para crianças e animais.
Vapes e produtos de tabaco aquecido também liberam substâncias no ambiente, mas é importante não confundir essa exposição com a fumaça passiva do cigarro. Em ambos os casos não existe a fumaça produzida continuamente pela ponta acesa de um cigarro. O aerossol ambiental é formado principalmente pelo que o usuário exala depois de inalar, absorver e reter grande parte dos componentes do aerossol.
Também é comum encontrar referências às “partículas” liberadas pelo vape como se fossem equivalentes ao material particulado presente na fumaça do cigarro ou na poluição atmosférica. Essa comparação ignora diferenças fundamentais. As partículas do aerossol exalado pelo vape são predominantemente gotículas líquidas e voláteis, compostas principalmente por propilenoglicol, glicerina, água e nicotina, que evaporam e se dispersam rapidamente. Já a fumaça produzida pela combustão contém uma mistura muito mais complexa de partículas sólidas e semi sólidas, gases e produtos tóxicos da queima.
O físico Roberto Sussman realizou uma extensa revisão da literatura sobre o chamado “vaping passivo” e mostrou que muitos dos estudos utilizados para justificar preocupações com essa exposição foram realizados em condições pouco representativas do uso real, como câmaras experimentais, ambientes extremamente pequenos ou protocolos que obrigam participantes a vaporizar com uma frequência muito superior à observada normalmente. Estudos realizados em ambientes reais encontram exposições muito menores. Em residências onde havia uso de cigarros eletrônicos, por exemplo, foram detectadas concentrações muito baixas de nicotina no ar e níveis de material particulado semelhantes aos encontrados em residências onde ninguém vaporizava.
Isso não significa que o vape não libere absolutamente nada no ambiente. Significa que detectar nicotina, gotículas ou traços de outras substâncias não é o mesmo que demonstrar uma exposição capaz de causar danos à saúde. Até o momento, as evidências disponíveis não demonstram um risco para terceiros comparável ao conhecido “fumo passivo” provocado pelos cigarros convencionais.
No Brasil, a proibição de uso de produtos fumígenos em recintos coletivos fechados também alcança dispositivos eletrônicos para fumar. Independentemente da comparação de riscos, respeitar ambientes livres de fumo e aerossol protege terceiros e evita exposição involuntária.
Todos os produtos sem combustão contêm nicotina?
Não necessariamente. Sachês de nicotina, snus, tabaco aquecido e formas tradicionais de tabaco sem fumaça são desenvolvidos ou utilizados para fornecer nicotina. A maioria dos cigarros eletrônicos também contém a substância, embora existam líquidos e dispositivos anunciados sem nicotina.
A concentração e a velocidade de absorção variam entre produtos, formulações e padrões de uso. Essas diferenças influenciam a experiência, os efeitos adversos, o potencial de intoxicação e a capacidade de substituir o cigarro para quem já fuma.
Produtos sem combustão são menos prejudiciais que o cigarro?
Não existe uma resposta única para todos os produtos. O cigarro convencional ocupa uma posição especialmente prejudicial porque combina dependência de nicotina com inalação frequente da fumaça da combustão. Retirar a queima reduz profundamente a exposição a muitos constituintes tóxicos presentes nessa fumaça, mas o resultado depende do que entra no lugar dela.
Alguns pontos ajudam a fazer uma comparação responsável:
· risco relativo não é risco zero: um produto pode ser substancialmente menos prejudicial que o cigarro e ainda causar dependência ou outros danos;
· a categoria não substitui a avaliação do produto: composição, dose, fabricação e controle de qualidade importam;
· redução de exposição não é automaticamente redução comprovada de doença: biomarcadores e análises químicas são importantes, mas doenças crônicas podem levar décadas para aparecer;
· a evidência é desigual: existe longa experiência epidemiológica com snus, mas muito menos acompanhamento de longo prazo para sachês modernos e alguns dispositivos recentes;
· não existe uma porcentagem universal de redução de risco: qualquer estimativa depende do produto, do desfecho de saúde, do padrão de uso e da comparação escolhida.
O CDC informa que o aerossol dos cigarros eletrônicos geralmente contém menos substâncias químicas nocivas do que a fumaça dos cigarros, mas ressalta que isso não torna o vape inofensivo e que os efeitos de longo prazo continuam sendo estudados. O serviço público de saúde britânico orienta que vapes podem ser utilizados por adultos que fumam como ferramenta para abandonar o cigarro e enfatiza que crianças e não fumantes não devem usá-los.
Nos Estados Unidos, a FDA autorizou alegações específicas de menor risco para determinados produtos de snus e, desde junho de 2026, para 20 sachês de nicotina ZYN. Para determinados produtos IQOS, de tabaco aquecido, autorizou alegações de redução de exposição.
No outro extremo, algumas preparações tradicionais pouco conhecidas no Brasil, mas muito populares na Ásia e em outras regiões, apresentam níveis altos e variáveis de nitrosaminas e contaminantes. Misturas com noz de areca acrescentam um carcinógeno independente. Tratar esses produtos como equivalentes a sachês sem tabaco, snus sueco ou terapias farmacêuticas seria cientificamente incorreto.
Trocar completamente é diferente de usar os dois produtos
A maior redução de exposição tende a ocorrer quando o cigarro é abandonado completamente. Continuar fumando e usar simultaneamente outro produto, o chamado uso duplo ou uso concomitante, mantém a exposição à fumaça e pode limitar o benefício esperado da substituição.
Isso não significa que qualquer período de transição seja inútil. Algumas pessoas reduzem o número de cigarros antes de conseguir fazer uma troca completa, e a trajetória pode não ser imediata. Mas reduzir cigarros não equivale automaticamente a reduzir o risco na mesma proporção. A forma de fumar pode mudar, e mesmo poucos cigarros por dia preservam riscos cardiovasculares relevantes.
Ao avaliar pesquisas e alegações de redução de danos, é essencial verificar se os participantes trocaram completamente, reduziram parcialmente ou apenas adicionaram um novo produto ao consumo anterior. São comportamentos diferentes e não devem ser somados como se produzissem o mesmo resultado.
Qual é o papel dos produtos sem combustão na redução de danos?
A redução dos danos do tabagismo parte de uma ideia prática: algumas pessoas conseguem parar de fumar sem manter o uso de nicotina; outras continuam fumando apesar de conhecerem os riscos e de terem tentado diferentes tratamentos. Para esse segundo grupo, substituir o cigarro por uma alternativa que não envolva combustão reduz a exposição às substâncias tóxicas produzidas pela fumaça.
A estratégia não coloca todos os produtos no mesmo nível nem substitui políticas tradicionais de controle do tabagismo. Ela considera um espectro de risco e prioriza a saída do produto mais prejudicial: o cigarro combustível. Para que um produto seja discutido como alternativa de redução de danos, não basta que seja utilizado sem fogo; é preciso avaliar sua composição, toxicidade, qualidade de fabricação, capacidade de substituir o cigarro e as evidências disponíveis.
No caso dos cigarros eletrônicos, a revisão Cochrane atualizada em novembro de 2025 reuniu 104 estudos e 30.366 adultos que fumavam. A análise concluiu, com evidência de alta certeza, que vapes com nicotina ajudam mais pessoas a parar de fumar por pelo menos seis meses do que terapias de reposição de nicotina nos estudos comparativos. Em termos absolutos, a revisão estimou aproximadamente 8 a 11 pessoas abstinentes a cada 100 usando vapes com nicotina, em comparação com cerca de 6 a cada 100 usando reposição de nicotina.
O snus oferece um exemplo ainda mais longo de substituição do cigarro por um produto sem combustão. Utilizado há mais de dois séculos na Suécia, ele permite observar padrões populacionais ao longo de décadas. Um estudo com mais de 60 mil suecos encontrou que, entre fumantes que posteriormente passaram a usar snus, 76,3% dos homens e 71,6% das mulheres haviam abandonado completamente o cigarro. O snus também apareceu como o método de cessação mais utilizado entre os homens e apresentou taxas de sucesso superiores às terapias de reposição de nicotina e outras alternativas avaliadas.
A experiência sueca também é relevante em escala populacional. A Suécia combina uma longa tradição de uso de snus com uma das menores prevalências de tabagismo do mundo. Segundo dados do CAN (Swedish Council for Information on Alcohol and Other Drugs), apenas 3,7% dos adultos suecos eram fumantes diários em 2024. A trajetória sueca ao longo das últimas décadas mostra uma forte redução do consumo de cigarros ao mesmo tempo em que o snus permaneceu amplamente utilizado, tornando o país um dos principais exemplos estudados sobre substituição do cigarro por formas de consumo de nicotina sem combustão.
O tabaco aquecido apresenta outro importante exemplo de substituição em nível populacional. No Japão, onde esses produtos começaram a se expandir rapidamente a partir de 2015 e 2016, as vendas totais de cigarros convencionais caíram 52,7% entre 2011 e 2023. Antes da expansão do tabaco aquecido, entre 2011 e 2015, as vendas per capita de cigarros caíam 1,5% ao ano. Entre 2015 e 2018, período de rápida expansão desses produtos, a queda acelerou para 10,5% ao ano e continuou em 7,3% ao ano entre 2018 e 2023, enquanto as vendas de tabaco aquecido continuaram crescendo. Os pesquisadores apontam o crescimento desses produtos como um dos fatores associados à transformação do mercado japonês.
Esses exemplos também mostram que redução de danos não significa simplesmente trocar qualquer produto com combustão por qualquer produto sem combustão. Produtos modernos fabricados dentro de padrões definidos, como cigarros eletrônicos, snus, sachês de nicotina e tabaco aquecido, não devem ser colocados automaticamente no mesmo grupo de preparações artesanais ou pouco padronizadas.
O nasvay é um bom exemplo dessa diferença. Embora não envolva combustão, sua fabricação pode ser artesanal e sua composição varia consideravelmente. Amostras analisadas em laboratório apresentaram grandes variações de nicotina, pH e nitrosaminas específicas do tabaco, substâncias cancerígenas, além da presença de ingredientes como cal e cinzas. Por isso, retirar a combustão não basta, por si só, para transformar qualquer produto em uma alternativa adequada de redução de danos.
É justamente por isso que a redução de danos deve considerar o produto como um todo. Ausência de combustão é o ponto de partida, não o único critério. Composição, controle de fabricação, níveis de substâncias tóxicas, capacidade de substituir completamente o cigarro e evidências científicas disponíveis determinam o papel que cada produto pode desempenhar.
O DIRETA mantém uma biblioteca com mais de 550 referências científicas sobre redução dos danos do tabagismo para aprofundamento do tema.
Como avaliar uma alegação sobre risco reduzido?
Antes de aceitar uma afirmação sobre qualquer produto, vale fazer algumas perguntas:
1. Qual produto foi realmente estudado? Resultados de uma marca ou formulação não valem automaticamente para toda a categoria.
2. Qual foi a comparação? Com cigarro, abstinência, outro produto sem combustão ou terapia de reposição?
3. O estudo mediu química, exposição ou doença? Menor emissão, menor biomarcador e menor incidência de doença são níveis diferentes de evidência.
4. Houve troca completa? Uso exclusivo e uso simultâneo não produzem a mesma exposição.
5. Por quanto tempo as pessoas foram acompanhadas? Estudos curtos não resolvem dúvidas sobre doenças que se desenvolvem ao longo de décadas.
6. Quem financiou e reproduziu o estudo? Financiamento não invalida automaticamente um resultado, mas independência, transparência e replicação fortalecem a confiança.
7. O produto é padronizado e regulado? Um item fabricado sob especificações verificáveis não deve ser presumido equivalente a um produto clandestino, adulterado ou artesanal.
Como os produtos sem combustão são tratados no Brasil?
No Brasil, as categorias não são tratadas por uma única regra.
Vapes e tabaco aquecido
A RDC 855/2024 da Anvisa manteve a proibição de fabricar, importar, comercializar, distribuir, armazenar, transportar e fazer propaganda de dispositivos eletrônicos para fumar. A regra alcança cigarros eletrônicos, vapes, pods e dispositivos eletrônicos destinados ao uso de tabaco aquecido, incluindo acessórios, peças e refis.
A importação é proibida inclusive para uso próprio e na bagagem de viajantes. A norma não criminaliza, por si só, o uso ou a posse individual, mas o uso de dispositivos fumígenos é proibido em recintos coletivos fechados, assim como ocorre com outros produtos fumígenos.
Produtos de tabaco sem fumaça
Snus, rapé, tabaco mascável, snuff, nasvay e outras preparações que contêm tabaco não são dispositivos eletrônicos. Eles pertencem ao conjunto dos produtos fumígenos derivados do tabaco e estão sujeitos às exigências sanitárias e de registro aplicáveis. A RDC 896/2024 disciplina o registro de produtos fumígenos derivados do tabaco; somente produtos regularizados podem ser comercializados legalmente.
A Anvisa também mantém orientações de saúde específicas sobre rapé, tabaco mascável, snus e snuff. Preparações importadas, artesanais ou vendidas sem identificação de origem apresentam problemas adicionais de composição, rotulagem, regularização e controle de qualidade.
Sachês e outros produtos de nicotina sem tabaco
Sachês de nicotina não contêm folha de tabaco e não se enquadram automaticamente como vape ou como produto derivado do tabaco. Isso não significa que exista uma autorização geral para sua venda. Até a revisão deste artigo, o Brasil não possuía uma via específica concluída de regularização que permitisse a comercialização desses produtos; a categoria estava sob análise formal da Anvisa.
O tema entrou na Agenda Regulatória 2026-2027 como Tema 16.5: “Regulamentação de produtos fumígenos emergentes, como bolsas de nicotina”. O processo foi aberto em março de 2026. Entre 29 de maio e 29 de junho, a Agência realizou a Consulta Dirigida nº 6/2026 para coletar informações sobre bolsas, sachês, tiras e outros produtos à base de nicotina introduzidos mais recentemente nos mercados internacionais.
Segundo a Anvisa, os subsídios poderão ser usados na Análise de Impacto Regulatório que deverá embasar uma nova norma. A consulta não envolveu cigarros eletrônicos, que permanecem regidos pela RDC 855/2024, nem substituiu uma decisão regulatória definitiva.
O cenário regulatório importa porque influencia padrões de fabricação, controle de qualidade, limites de nicotina, rotulagem, idade mínima, publicidade, fiscalização e informação ao consumidor. Regular, proibir e liberar sem regras são decisões diferentes, com consequências distintas para a saúde pública e para o mercado ilegal.
O que é importante entender sobre produtos sem combustão?
Produtos sem combustão formam um conjunto diverso. Vapes aquecem líquidos; produtos de tabaco aquecido aquecem tabaco processado; sachês, snus, tabaco mascável e nasvay são usados na boca; rapé é aspirado; produtos dissolvíveis se desfazem na cavidade oral; e terapias de reposição fornecem nicotina em formulações farmacêuticas.
O que aproxima essas categorias é a ausência da queima característica do cigarro convencional. Quase todo o resto pode mudar: ingredientes, presença de tabaco, via de absorção, velocidade de entrega da nicotina, emissão para o ambiente, controle de fabricação, evidência científica e enquadramento legal.
Compreender essas diferenças evita dois erros comuns: tratar todos os produtos de nicotina como se fossem iguais ou imaginar que a ausência de fumaça significa ausência de risco. A comparação correta precisa considerar composição, forma de uso, dose, substâncias emitidas, nível de exposição, qualidade da evidência, padrão de consumo e contexto regulatório.
Para adultos que fumam, o ponto central da redução de danos é a substituição completa do cigarro combustível. Para políticas públicas, o desafio é comunicar riscos relativos com clareza, proteger crianças e adolescentes, assegurar padrões de qualidade e estabelecer regras proporcionais às características de cada categoria.
Perguntas frequentes
Quais são os principais produtos sem combustão?
A expressão inclui cigarros eletrônicos, produtos de tabaco aquecido, sachês de nicotina, snus, rapé, tabaco mascável, dip, snuff seco ou úmido, tabaco dissolvível e preparações regionais como nasvay, gutka, khaini, toombak, shammah e chimó. Terapias de reposição de nicotina também não envolvem combustão, mas são medicamentos para cessação e formam uma categoria própria.
Vape e cigarro eletrônico são a mesma coisa?
Sim. Vape, vaporizador e cigarro eletrônico são nomes usados para a mesma categoria geral de dispositivos. Pod é um tipo de vape, normalmente compacto e baseado em cartuchos ou reservatórios menores.
Tabaco aquecido e vape são iguais?
Não. O tabaco aquecido utiliza tabaco processado. O vape aquece um líquido, que pode conter nicotina, aromatizantes e outros ingredientes. Os dois geram aerossol, mas pertencem a categorias diferentes.
Qual é a diferença entre sachê de nicotina e snus?
O sachê de nicotina não contém folha de tabaco. O snus contém tabaco úmido e processado. Ambos são colocados entre o lábio e a gengiva e liberam nicotina pela mucosa oral.
Produto sem combustão produz fumaça?
Não há fumaça sem queima. Vapes e produtos de tabaco aquecido produzem aerossol. Sachês, snus, tabaco mascável e nasvay não produzem emissão relevante para o ar durante o uso oral; o rapé pode dispersar partículas de pó durante a aspiração.
Aerossol de vape é apenas vapor de água?
Não. O aerossol pode conter propilenoglicol, glicerina, nicotina, aromatizantes, partículas e compostos formados durante o aquecimento. Sua composição varia conforme o produto e o modo de uso.
Nasvay é um produto sem combustão?
Sim. Nasvay é uma preparação de tabaco sem fumaça usada principalmente na boca. Isso não significa que seja de baixo risco: sua composição pode variar e incluir tabaco, cal, cinzas, óleos e outros ingredientes, além de nicotina e nitrosaminas.
Produto sem combustão é isento de risco?
Não. A ausência de combustão reduz a exposição a substâncias presentes na fumaça, mas os produtos podem conter outros componentes e apresentar riscos próprios.
Sachês de nicotina ajudam a parar de fumar?
Os sachês de nicotina não são aprovados como medicamentos ou tratamentos para cessação do tabagismo. Isso, no entanto, é diferente de perguntar se sua entrada no mercado pode deslocar o consumo de cigarros.
Evidências robustas mostram que à medida que formas de consumo de nicotina sem combustão ganham espaço, grande parte do consumo de cigarros é substituída por esses produtos. A Suécia é um dos exemplos mais importantes. Depois de décadas de substituição do cigarro pelo snus, o país passou também por uma rápida expansão dos sachês de nicotina, especialmente entre grupos mais jovens de adultos, enquanto o tabagismo continuou diminuindo.
Esse fenômeno também começa a aparecer em outros mercados onde os sachês conquistaram participação relevante. Estudos e dados de vendas mostram que esses produtos não são necessariamente utilizados como um tratamento formal, com data para começar e terminar, mas funcionam como substitutos de mercado para os cigarros, fornecendo nicotina sem combustão para consumidores que de outra forma poderiam continuar fumando.
Portanto, a discussão sobre sachês de nicotina não deve se limitar à pergunta sobre sua aprovação como medicamento para cessação. Eles não são medicamentos. São produtos de consumo que podem competir diretamente com o cigarro. Para a redução de danos, uma das questões mais importantes é justamente em que medida essa substituição desloca o consumo de produtos combustíveis por alternativas sem combustão.
Usar vape e continuar fumando reduz os danos?
Pode haver alguma redução de exposição se o número de cigarros cair, mas o maior benefício é esperado com a substituição completa. O uso simultâneo mantém a exposição à fumaça e não deve ser confundido com abandonar o cigarro.
Qual é a opção menos arriscada?
Os produtos de nicotina não apresentam todos o mesmo nível de risco. Existe um continuum de risco, que vai da ausência de consumo até os produtos combustíveis, responsáveis pelos maiores danos.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada por Murkett, Rugh e Ding em 2022 reuniu 123 estudos e comparou 15 categorias de produtos de nicotina, atribuindo ao cigarro combustível uma pontuação de referência de 100. O resultado mostra uma diferença muito grande entre produtos combustíveis e alternativas sem combustão.
Na escala elaborada pelos pesquisadores, os produtos aparecem na seguinte ordem, do maior para o menor risco:
- Cigarros combustíveis: 100
- Cigarrilhas: 99,2
- Tabaco de corte: 93,2
- Bidis: 83,5
- Charutos: 65,7
- Narguilé: 61,1
- Tabaco sem fumaça de outras regiões do mundo: 53,3
- Cachimbo: 40,4
- Dip americano: 8,7
- Tabaco mascável americano: 7,7
- Produtos de tabaco aquecido: 6,3
- Snus: 4,5
- Cigarros eletrônicos: 2,7
- Terapias de reposição de nicotina: 0,4
- Sachês de nicotina sem tabaco: 0,1
- Não utilizar produtos de nicotina: 0
A diferença é bastante clara. Todos os produtos combustíveis avaliados ficaram entre 40 e 100 pontos, enquanto os produtos de risco reduzido ficaram abaixo de 10 pontos.
A análise também ajuda a entender por que simplesmente classificar um produto como “tabaco” ou “nicotina” diz pouco sobre seu risco. Um cigarro recebeu pontuação 100, enquanto o snus ficou em 4,5 e os sachês de nicotina sem tabaco em apenas 0,1. O principal divisor do continuum é a combustão, mas composição, processamento e forma de consumo também fazem uma enorme diferença.
Isso explica também por que produtos tradicionais e artesanais não podem ser automaticamente considerados alternativas de redução de danos apenas porque não são fumados. A categoria “tabaco sem fumaça de outras regiões do mundo”, que inclui produtos muito diferentes e menos padronizados, recebeu pontuação de 53,3, muito acima de produtos modernos sem combustão, como snus, vapes, tabaco aquecido e sachês de nicotina.
Portanto, para quem não utiliza nicotina, a opção de menor risco é continuar sem utilizar. Para quem fuma e não consegue ou não deseja abandonar a nicotina, o continuum mostra que a escolha do produto importa enormemente: substituir completamente um produto combustível por uma alternativa situada muito abaixo na escala pode representar uma redução substancial do risco.
Referências consultadas
Regulamentação e fontes oficiais brasileiras
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) — Cigarro eletrônico
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) — Anvisa atualiza regulação de cigarro eletrônico e mantém proibição, 2024
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) — Consulta Dirigida nº 6/2026 sobre produtos fumígenos à base de nicotina
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) — Anvisa inicia coleta de informações sobre produtos fumígenos à base de nicotina, 2026
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) — Snus e Snuf
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) — Tabaco inalável (rapé)
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) — Tabaco mascável (fumo de rolo)
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